
16.7.09
poema do vento

- ana guadalupe às 12:15 0 welcome roxy
7.7.09
outra linha
se fizesse uma viagem no tempo pra contar pra mim, lá no interior do interior, que em alguns anos eu faria parte de uma antologia - daquelas que eu tanto amava - organizada pela mesma Heloísa Buarque de Hollanda, eu provavelmente teria morrido de susto e não estaria aqui.
mas estou. depois de algumas publicações na internet, minha primeira em papel (por isso toda a comoção que não volta mais) é na antologia otra línea de fuego: quince poetas brasileñas ultracontemporáneas. publicada na espanha pelo selo maRemoto, é uma edição bilíngue, na qual as 15 poetas selecionadas têm 13 poemas em português e também na bonita tradução para o espanhol da poeta e dramaturga Teresa Arijón.
é muita alegria dividir um livro com essas mulheres. é sério e são sérias: Alice Ruiz, Alice Sant'anna, Ana Cristina Cesar (sim), Angela Melim, Angélica Freitas, Bruna Beber, Camila do Valle, Claudia Roquette-Pinto, Daniela Storto, Izabela Leal, Juliana Krapp, Lu Menezes, Marília Garcia e Virna Teixeira.
fiquem com a foto e alguns poemas em espanhol.
quando eu souber como comprar, aviso aqui.
o livro é lindo (e não pela minha presença, é óbvio).
abraços pra elas e pra todo mundo.
buenas noticias
hisopos nunca compra
el repartidor de periódicos
semidespierto en arrebatos
destruyendo tal vez la artesanía
recién producida por ex-criminales
en trance
cotton algodón candy dulce
jobson con su nombre raro tenía
el cabello lateral como un príncipe
- jugábamos al escondite
(yo) terminaba por hacer pipí entre las plantas
muy tensa y perfectamente escondida
después lidiaba con la vergüenza
de la mancha en el cotton del pantaloncito
pero ganaba el juego y ahí estaba
la alegría
- ana guadalupe às 17:29 11 welcome roxy
em poemas
30.6.09
sinédoque, nova iorque
mesmo que mude de opinião amanhã, hoje - terça, 30 de junho - respeito bastante esse 1º filme do charlie kaufman como diretor. o mesmo vale para o diretor da história dentro da história, interpretado pelo phillip seymour hoffman, com sua tentativa utópica (embora inevitável) de aproximar ficção e realidade, numa projeção generosa também da realidade fora do filme. charlie kaufman deve pensar bastante nesses limites, já que seus roteiros anteriores também tratam das manifestações físicas das coisas da cabeça.
There are nearly thirteen million people in the world. None of those people is an extra. They're all the leads of their own stories.
verdade assustadora.
- ana guadalupe às 20:42 0 welcome roxy
24.6.09
escorpião escarlate
ele é divino, esperto, genial
é o paladino 100% nacional
- ana guadalupe às 19:45 0 welcome roxy
16.6.09
felicidade apática, apatia feliz
de passagem só pra lembrar da genialidade do tumblr temático happiest people ever, que diz reunir registros de pessoas que ignoravam a existência do XIS da foto sendo feita e, só por isso, saíram com cara de bunda. é o que eles dizem, e tem até um queijo no fundo.
todo mundo tem fotos infelizes, mas há também a possibilidade disso não ser questão de escolha, mas de quase predestinação. um indivíduo que nasce todo sorrisos (espontâneos ou não) dificilmente conseguirá chegar, mesmo se quiser, à atmosfera desse tipo de semblante apático que ultrapassa o tédio e a paisagem simples. e vice-versa: o verdadeiro apático não consegue fingir ímpetos de empolgação muito convincentes.
no caso do tumblr das "pessoas mais felizes ever" (note que o nome fala do estado de espírito, não do acidente) a pessoa, poxa, na maioria das vezes tá num momento de diversão, vendo a câmera E o fotógrafo, e não se anima sozinha? mas nada é certo. posso estar levando muito a sério a descrição, o queijo e minhas próprias fotos. e apatia, aliás, nem sempre descreve os sorrisos de monalisa, que são até mais ricos em emoção que muitos dos sorrisos abertos.
de qualquer forma, é bem mais engraçado pensar que essas pessoas são assim o tempo todo. e difícil acreditar que, no próximo segundo, elas passariam da vibração DO CONTRA aparentemente genuína pra um sorrisão fotográfico proporcional.
- ana guadalupe às 19:47 5 welcome roxy
9.6.09
laços de fita quando mastigada pelo videocassete
os créditos sobem pesados
como grandes sacolas de presente
ah eles podiam ter avisado
que nos assombram e perseguem
os pacotes devolvidos
a paz de espírito por um videocassete
cujos cabeçotes são repetidamente salvos
pelas fitas limpas em defesa das sujas
mas não sem mastigar antes
toda aquela família com cabeças
de cone
- ana guadalupe às 17:51 5 welcome roxy
em poemas
1.6.09
o ginásio
I.
o repetente da quinta série
tinha comigo amizade passageira
e um rasgo nas calças
que me mostrava sorrindo quando
a professora
de ciências (sua mãe) não olhava
eu checava
se era comigo
ou com a menina atrás de mim
com que ele falava
comigo
II.
o repetente da sexta série
era filho da professora de teatro
às vezes o encontrava à tarde
no mercado
da esquina e minhas pernas
tremiam embora segurasse
firme os pacotes de bolacha
III.
o repetente do primeiro colegial
não sei da sua família
vestia quase sempre a mesma
blusa de lã azul macia
embora eu nunca a tenha tocado
aprendi mais sobre os dedos
da mão dele girando
a caneta também azul
do que qualquer matéria
daquele ano
- ana guadalupe às 20:36 6 welcome roxy
em poemas
25.5.09
22.5.09
alex ídolo
a 8ª temporada de um dos meus prazeres constrangedores acabou e já sinto aquela saudade de quem acompanhou os ídolos americanos desde o primeiro dia, quando tudo era mais espontâneo. minha aposta era a megan joy, mas passei a odiá-la no programa seguinte. anoop e von smith, outros dois preferidos, também perderam o brilho.

- ana guadalupe às 14:54 0 welcome roxy
20.5.09
feijoada
oi
vi seu twit
sobreviveu à feijoada velha
sobrevivi
acho que tou com verme mesmo
eu tb acho
depois da feijoada ainda comi um montao de tornta de frango
mas é sério
não é brincadeira
vixi
pq?
até o seu bafo e tal
e os barulhos de estômago
e o intestino desregulado
tudo isso tem a ver com vermes
e se vc não toma remédio há anos, a probabilidade é ainda mais alta
diagnostico completo
mas é sério
vc tem que tomar remédio
vou tomar remedio de verme
como chama?
os vermes saem vivos no coco? pq se sair, nao vou tomar nao
não
eles saem moídos
que loco
- ana guadalupe às 11:21 3 welcome roxy
11.5.09
pensando com os botões
como seria bom compartilhar o sentimento pelo benjamin button. eu quero. mas, no meio de tanta maquiagem e efeito de última geração, lá vem a lógica estragada: benjamin fica caduco cedo demais mesmo pra um velho, tem aquela certeza desonesta da progressão da sua moléstia e, se não nasceu grande (porque seria impossível), não devia ter diminuído. ou então, já que é assim, devia ter virado gameta.
(enumeração) e a bailarina toda sexy se jogando no chão. o final propaganda de celular. as metáforas pro tempo repetidas à exaustão como se a gente ainda não tivesse entendido. a velha de lábios carnudos (não existe velha de lábio carnudo) resolvendo contar a história pra filha desinteressada (que não herdou sequer um pacote de genes dos pais, que são os mesmos e tão simples, tão fáceis), em vez de morrer logo.
- ana guadalupe às 23:31 0 welcome roxy
6.5.09
coroinha
estou andando na rua no horário de almoço. sinto sono. uso sandálias de plástico, uma blusa de lã com bolinhas, a saia jeans no joelho que era moda em 2004 e meia-calça preta cuja mancha no tornozelo não havia percebido pela manhã.
sou abordada por um senhor de idade avançada:
senhor de idade avançada: moça, de qual igreja você é?
eu: (minutos depois) ... nenhuma.
senhor: ah, parecia tanto...
eu: ...
volto a andar sem olhar pro homem. examino minha figura no vidro da próxima loja e penso que, é verdade, devo parecer meio religiosa com essas roupas. não evito a frustração de ter perdido mais uma oportunidade de mentir pra um desconhecido. imagino como seria ter respondido qualquer outra coisa. "igreja de satã", "maçonaria" e "bola de neve church" são só alguns exemplos. também dava pra sair completamente do tema.
- ana guadalupe às 08:59 2 welcome roxy
2.5.09
os melhores amigos
com a amizade do google reader e o método de leitura dinâmica finalmente se mostrando útil, minha ânsia doentia de compartilhar é proporcional ao velho dilema da participação supervalorizada (na falta de um nome melhor pro dilema).
tanta coisa pouco importante pra dizer, tanto seriado ruim pra comentar, tanta foto de roedores com linguinhas que, quando tudo acumula, o desespero agora responde por um novo número: 1000+. em oposição ao prazer, que é o zero. mas o zero - quem conhece sabe do que falo - traz outro tipo de desespero.
enquando estreito meus laços diários com o reader e com as vertigens, mais me sinto próxima dos autores dos blogs que contribuem com isso. e das linguinhas dos roedores. na maioria das vezes, nosso único amigo em comum é o leitor de feeds do google, mas isso não é problema.
- ana guadalupe às 20:09 2 welcome roxy
21.4.09
entrando pela janela
algumas das principais tags do mundo, tipo morte, amor e solidão, estão no filme let the right one in ou låt den rätte komma in (ou ainda com os belos títulos deixe ela entrar e DEJAME ENTRAR - ando achando espanhol lindo). isso sem citar crianças e vampiros, outras que nunca faltam na minha nuvem disfuncional.
aposto que, mesmo antes do grande final, a história de oskar & eli consegue conquistar até os mais conservadores. meu coração eles já tinham na primeira cena, quando o menino, sozinho no quarto, fantasia sobre as situações imaginárias de angústia e glória - que sempre significam mais quando envolvem um vizinho novo e estranho.
- ana guadalupe às 18:07 4 welcome roxy
19.4.09
o amor em círculos
na antecipação do começo
passaram dias inteiros no apartamento
103 falando sobre como tudo seria
o irmão drogado gritava no quarto
seus pais liam a bíblia
todos juntos comiam carne
de hambúrguer
com os dedos
quando foram ao parque itinerante
andaram juntas no brinquedo novo
que girava coberto pela lona
no final estavam as duas deitadas no banco
pensando que ainda se sentavam
como tinham planejado
pra tarde de sábado
no domingo ela contaria sobre
os meninos que tinha beijado
de olhos abertos no estacionamento
um deles era violento e morava longe
passava férias no apartamento da tia
ergueu a outra no ar até saltarem
aquelas veias finas
do pescoço
12.4.09
páscoa feliz
vou ver filme
eu tb
até
ganhou ovo?
aposto que ganhou ovo da itamaraty
ganhei nada
aposto que vc tbem nem ganhou
aposto que ninguem lembrou de você
- ana guadalupe às 16:09 2 welcome roxy
8.4.09
notas pra vida toda
uns dias atrás assisti ao documentário this filthy world. trata-se do john waters sozinho num palco, falando durante mais de uma hora sobre a infância, cultura pop e, naturalmente, os filmes que dirigiu. transcrevo aqui (na falta de coragem pra traduzir) alguns dos trechos mais inspiradores dessa palestra motivacional da IMUNDÍCIE.
All young people need somebody bad to look up to.
When I was a child, the holy trinity to me was the Wicked Witch of the West; Rhoda Penmark, the child murderess in “The Bad Seed”; and Captain Hook. I prayed to these people.
The Wicked Witch… I was in drag only once in my life and that was as the Wicked Witch. I went to a children’s birthday party and I raised a few parents’ eyebrows, but it wasn’t so much I wanted to wear a dress, (…) but because I wanted to have green skin – something you can see as coming true.
I was the only kid in the audience who didn’t understand why Dorothy would ever want to go home – it was a mystery to me. To that awful black and white farm, with that aunt who was dressed badly, smelly farm animals around, when she could live with wing monkeys and magic shoes and gay lions. When Dorothy would be clicking her heels together, I would be the only child in the audience sobbing uncontrollably.
--
As a kid, the library saved my life. I mean, most everybody here likes the library, many of you probably had your first sexual experience at the library. (…) We have to make books cool again. If you go home with somebody and they don’t have books, don’t fuck them. And DVDs don’t count either. I had a plumber that came at my house and he looked around and said “ahh, do you read all these books? I hate read. Turning those pages right to left, right to left, right to left…”.
Even as a kid I would go to the library and look at the card catalog and I’d look up things I wanted to read (…) and then it would say “see librarian”. And that pissed me off. So I found out where the “see librarian” books were behind the counter and I stole them, while they were talking to the regular children. So that just goes to show that if you’re a librarian today and a kid asks for “Naked Lunch” and he’s seven years old – if he’s heard of it then he’s old enough to read it.
--
(On his early movies) Next came “Roman Candles”, which was very much influenced by “The Chelsea Girls” (…). It was basically just home movies of my friends like Mink Stole shoplifting and wearing outfits they’d stolen from the paraphernalia boutique in New York. We were really good shoplifters. I had a special coat for records - and I don’t feel bad, because they’re the same records I pay 25 thousand each today to put in soundtracks to my movies. So they got it back, it only took forty years.
Divine was really good. I saw Divine walk out of a department store once holding a chainsaw and a TV. No one said one word actually.
- ana guadalupe às 23:48 1 welcome roxy
acaso & necessidade
“A experiência de criar um poema é maravilhosa. Mas, como não depende inteiramente de mim, sei que corro o risco de nunca mais vivenciá-la. Se parar de fazer poesia, vou lamentar – só que não a ponto de disparar um tiro na cabeça. Nenhum poema, de nenhum poeta, me parece imprescindível. Dante Alighieri poderia não ter escrito A Divina Comédia. Ou poderia tê-la escrito de outro jeito. Novamente, tudo se subordina à lei do acaso e da necessidade.”
ferreira gullar em entrevista à bravo.
- ana guadalupe às 17:30 0 welcome roxy
6.4.09
os moradores de quitinete
o chão de quitinete
acumula os mesmos ácaros
que andam pelos corpos e cabelos
compartilhados no único
travesseiro úmido
dos moradores de quitinete
quando sentem sono
- ana guadalupe às 21:02 1 welcome roxy
em poemas
