prometemos
telefonemas
numa dessas
noites de carona até
as fronteiras das menores
cidades mais frias
prometemos
machucar
um bocado
no escuro das calçadas
como os palitos
de dente e os pregos
23.7.08
palitos
- ana guadalupe às 21:32
em inacabados, poemas
22.7.08
ovos de amendoim
minha vida é bem triste aqui
é?
acho que se adaptar a um lugar novo demora em média cinco anos
cinco anos muito tristes
porra!
cinco anso?
sim
cinco asnos?
cinco aons
mai será?
é, ah, errei a brincadeire
tá na moda
esse e no final né
tipo galere
eu sabia que você sabia
mas eu nem uso, só tou brincando agora
entendi.
mas desenvolva a teoria dos 5 anos
é só que eu demorei em média 5 anos pra me adaptar aos lugares
e percebi que as pessoas normais também demoram
e geralmente resistem e querem voltar nos primeiros anos
vc morou em 4 lugares?
morei em 3 lugares
entao vc tem 15
em dois demorei 5 anos pra me sentir bem
eu me iludi.
fiquei eufórico - primeiro por ter um emprego novamente
nunca pensei coisas do tipo "estou indo pra capital, meu lugar. sou cosmopolita", na verdade me sinto bem baiano aqui. mas achei que poderia ter acesso a coisas bem bacanas
mas minha vida se resume à mesma prostração medíocre
tipo, cultura.
nao vi uma peça de teatro. um filme.
ah, é uma ilusão
pensar que o ambiente muda tudo
fui em dois shows só.
é o que eu penso quanto a morar em sp ou curitiba
sei que vou acabar passando o tempo todo no trabalho e no meu quarto
como eu faço
e, a não ser que tenha companhias muito boas
(que são raras em qualquer lugar do mundo),
não vou sair de casa
afinal não sou do tipo que vai ao cinema ou numa exposição sozinha
agora aqui, na ninha casa, eu tenho até sala. vou ali raramente.
é. aí eu penso que o que importa mesmo é o meu quarto
a cultura tem na internet
e as pessoas são chatas em todos os lugares
e, se for depender delas, vou morrer
aqui são mais
tenho até amigos aqui, mas são aspirações diferentes
sempre acho aqui tudo bem chato.
antes queria um bar que pudesse ouvir samba. aqui tem milhares.
tudo chato.
também tem aquilo de nunca valorizar as coisas
sempre acho tudo uma merda, depois me arrependo por não ter aproveitado
dá vontade de chorar
mas não chore hj nao
é verdade, eu nunca valorizo nada.
tava pensando esses dias. tenho hj um monte de coisa que sempre quis ter: 3 latões de skol na geladeira. ovinhos de amendoim no armário, um computador, óculos, vários sebos a duas quadras de casa
e daí?
a vida é bem cruel
- ana guadalupe às 22:38 3 welcome roxy
17.7.08
talento
ganhei um mp4 player do paraguai só pra lembrar da incrível sensação de sentir minhas orelhas cuspirem os fones de ouvido pequenininhos. faço até showcases da anomalia: com os dois bem colocados (direito e esquerdo) nos buracos dos ouvidos, sorrio, balanço levemente a cabeça e, em menos de 20 segundos,
puf -
lá vão os fones rejeitados.
- ana guadalupe às 17:10 4 welcome roxy
em música
8.7.08
atropelando o garfunkel
e durante anos observei capas de disco que encontrava pela casa.
eram LP's que àquela altura raramente alguém ouvia
(acho que tinham enjoado)
e eu me arrependo por ter feito o mesmo.
fiquei só com as capas:
o rod stewart e seu terno vermelho em várias poses,
dire straits e as guitarrinhas no fundo azul,
kiss com olhos que brilhavam no escuro,
a rita lee meio na neblina vestida de kate bush,
rolling stones com silhuetas pontilhadas,
os carpenters sempre sorrindo,
o phil collins olhando para o nada e
(alguns tinham dedicatórias)
a maria bethânia sem blusa
coberta de insetos.
a maria bethânia estava sem blusa e coberta de insetos.
outro que muito me assombrava era o art garfunkel comendo codornas.
se você abrisse o disco, o veria chupando os dedos engordurados
e sorrindo com olhos de louco.
se olhasse de perto, veria que ele não tinha um dente.
nunca ouvi. fui ver agora que esse disco existe mesmo, é de 1979 e,
segundo o allmusic guide, um dos piores da carreira dele.
só não consigo achar as codornas que, juro, costumavam estar lá.
- ana guadalupe às 19:25 2 welcome roxy
29.6.08
perfume de espíritos, tomates que brilham, eternamente sereia, edward grape, gilbert mãos de tesoura
elas tinham cabelos armados e usavam uns coletes marrons e calças de cintura alta. já o rapaz que minha mãe namorava usava calças vermelhas e tinha cabelo comprido. um dia ele levou um super nes pra tentar me conquistar, mas o videogame não funcionou e eu o odiei mais ainda.
num outro, minha mãe disse que iria à farmácia e quando voltou, eu preocupada avistei o rapaz e suas calças vermelhas. creio que nunca senti tanto ódio e nunca fiz gestos tão obscenos sem medo algum de reprovação.
naquele dia fomos assistir a perfume de mulher. não entendi nada e só me preocupei com as balas de iogurte e canela, mas lembro que minha mãe gostou muito. suas amigas também.
-
vi perfume de mulher pela segunda vez aos 13 anos, quando já sabia quem eram os atores principais. não entendi nada.
alguns dias atrás, ansiosa zapeando a tv do jeito mais rápido possível, esbarrei com o al pacino cego (sim) ensinando tango à moça. depois ou antes, entre um canal e outro, o encontrei de novo numa conversa tensa com seus familiares. foi o bastante pra chorar de emoção.
não sei se pelos meus seis anos e a ignorância das balas, meus 13 anos e qualquer outra coisa, minha mãe, que nem é cega, seu antigo caso de calças vermelhas e as amigas com quem perdeu contato ou, sei lá, o chris o'donnell, que nunca mais fez filmes e o al pacino, que parecia muito cego (mas sabemos que não era).
-
também tinha a casa dos espíritos na programação dessa semana.
antes eles vinham de uma locadora de vídeo chamada london - que delícia era vê-los nas capas gordinhas de VHS. clássicos familiares cheios de mistério tipo tomates verdes fritos, radio flyer, o óleo de lorenzo, nell, mentes que brilham, minha mãe é uma sereia, feitiço do tempo, morrendo & aprendendo, eternamente jovem, um mundo perfeito. e os jovens charmosos que pretendíamos ser: edward mãos de tesoura, caindo na real, vida de solteiro, três formas de amar, benny & joon, antes do amanhecer, gilbert grape. e tantos outros que, como esses, não eram alternativos, eram só legais.
não se fazem mais filmes como no início dos anos 90.
- ana guadalupe às 16:59 13 welcome roxy
da torneira ou arquitetura ou diva
acaba logo esse copo d'água
a sala quando fica escura
quer escurecer sozinha
ao lado de uma sacada
que receberá escondida
a visita tardia da chuva
que planeja a hora certa
pra quebrar seus dentes
num copo d'água
19.6.08
obs
tudo mentira
não sou presunçosa
não como hot pocket sadia todas terças e quintas
não danço sozinha de pijamas marisa
não penso nos espíritos dos amigos mortos nessas circunstâncias
ritmo quente
não. você nunca me verá chacoalhando o esqueleto.
se por acaso viu, é provável que eu esteja em casa
remoendo o constrangimento
OU dançando sozinha
com medo de que amigos que morreram estejam assistindo.
conheci MGMT e black kids no mesmo dia e, se eu dançasse, dançaria tipo assim:
MGMT - kids (clipe não-oficial)
- ana guadalupe às 12:34 1 welcome roxy
17.6.08
amestrados & platônicos
das metas atropeladas pelos anos, ouvir música brasileira era (é) uma das principais. não (só) porque parece obrigatório conhecer o mínimo, mas porque, puxa, nossa língua é tão poética
(bicho-grilo)
(preconceito).
creio que dar uma chance à mpb não vai instantaneamente me encaixar malabares nas mãos
(preconceito).
então ouço vários discos nacionais no meio do chamber pop (?) de sempre. mas as coisas não mudam de um dia pra outro (e nem precisam) e ainda acabo nos hits baratos, de valor sentimental, da espécie joão penca & seus miquinhos amestrados, prediletos quando eu era criança - e eles atuais.
muito lirismo:
não diga nada para a sua mãe
apague a luz pra eu te ver melhor
eu vou chorar lágrimas de crocodilo
vou inundar o seu umbigo
-
uns tempos atrás eu tava comentando com minha amiga camila sobre uma nova paixão virtual (?).
ela, capciosa, logo perguntou:
é aquele menino com nome estranho?
yonlu?
(perdoem a piada)
-
outro dia, uma outra amiga chamada evelin contou que o bonitão ted bundy (via índice da maldade) continou recebendo cartas de fãs apaixonadas durante anos depois da morte na cadeira elétrica, no dia 24 de janeiro de 1989.
segundo a wikipédia, suas últimas palavras tinham a ver com dar amor pra família e amigos.
- ana guadalupe às 12:07 7 welcome roxy
franny diz:
"I'm just sick of ego, ego, ego. My own and everybody else's. I'm sick of everybody that wants to get somewhere, do something distinguished and all, be somebody interesting."
"I'm not afraid to compete. It's just the opposite. Don't you see that? I'm afraid I will compete--that's what scares me. (...) I'm sick of myself and everybody else that wants to make some kind of a splash." She paused, and suddenly picked up her glass of milk and brought it to her lips. "I knew it," she said, setting it down. "That's something new. My teeth go funny on me. They're chattering. I nearly bit through a glass the day before yesterday. Maybe I'm stark, staring mad and don't know it."
j.d. salinger
1961


