31.5.07

o renato

alô: leiam o meu amigo renato mazzini, um dos poetas com quem mais me identifico. aqui vão três dos meus preferidos, sem mais.


poema obscurecido


velha senhora comendo grama com chopsticks
me pergunto o porquê disso
e a providência me tenta pregar uma peça
velha senhora pintando um quadro
unhas confusas no verde-pântano da grama
olho e entendo pouco
e distraído me deixo cair
sob a sombra de um aerólito



autobiografia em dezessete linhas


moleque pequeno que não gosta de futebol
e tem tão poucos amigos que só podia dar em psicólogo
mãe pegando pela mão
tudo transcorre sem maiores problemas
canhestro para o amor e dado
a desperdiçar vazio
mente o fôlego
aos vinte e três falta o jeito
quebra o parabrisa com a cabeça
um corte grande na testa e os olhos
com o sangue nem abrem direito
pensa ter encontrado a tulipa à espera
mas pode estar errado
e reconhece como o resumo de sua história
que a vida pratica reengenharia genética
em tudo que se dá por certo
só pra te fazer rir ao contrário
só pra te fazer esperar o reafago


breu


escuridão como colher de sopa
que parou de refletir um rosto algum
mesmo com o líquido sorvido
escuridão de mangas apertadas
e gola incômoda que pinica a pele
e zíper dado à ferrugem de jamais abrir
escuridão minha guardada na carteira
visível só pelos íntimos
e cravejada de constrangimento amargo
escuros os segundos que rejeitam
o trabalho de se agrupar em minutos
e os meus dentes amarelam enquanto


-

Nenhum comentário: