29.11.07

olhos sexy

na parte de trás da caminhonete o cheiro de gasolina
era maior que o cheiro de leite ou cachorro-quente
que devem ter as pessoas próximas

com o líquido que vaza dos sorrisos
purificados com bicarbonato
e de caminhonetes paradas

inesperadas em pontos turísticos
às vezes incômodos como o memorial
de um incêndio

destruindo todas as minhas revistas

de novela e a música
que falava sobre olhos sexy

27.11.07

só vocês pra me fazerem rir num dia ruim

incrível: depois que reclamei das visitas geradas por buscas no google envolvendo palavras genitais, elas sumiram, desapareceram, nunca mais! senti falta.

no entanto as buscas andam mesmo mais coerentes. pessoal procurando relatos dos anos 90, loiras americanas, coisas de meninas e índio diego, aqui é o lugar certo; entre e fique à vontade.

ameli polar também, claro.




pessoa física

neste verso não há música
é preciso rasgá-lo
em pedaços pequenos
para que os ladrões de CPF
não vejam

basculante

evitar descrever a alegria
ou julgá-la constante
até que passe típica e nua
pela janela ou

continuar a esquecê-la
para que volte de surpresa
e não lhe encontre palavras belas
e não saiba como descrevê-la:

tremor, açúcar, letargia


(2005)

19.11.07

torta

após a agonia vem o alívio
em camadas bem dispostas:
cadáveres, desníveis

ah, se as coisas palpáveis
marcassem encontros
com as coisas possíveis



11.11.07

charles simic

Errata

Where it says snow
read teeth-marks of a virgin
Where it says knife read
you passed through my bones
like a police-whistle
Where it says table read horse
Where it says horse read my migrant's bundle
Apples are to remain apples
Each time a hat appears
think of Isaac Newton
reading the Old Testament
Remove all periods
They are scars made by words
I couldn't bring myself to say
Put a finger over each sunrise
it will blind you otherwise
That damn ant is still stirring
Will there be time left to list
all errors to replace
all hands guns owls plates
all cigars ponds woods and reach
that beer-bottle my greatest mistake
the word I allowed to be written
when I should have shouted
her name

3.11.07

(para poder crescer)

minha amiga camila nham e eu temos (há anos) planos loucos de adaptar esse livro pro teatro.

os últimos tempos estão pedindo uma releitura. ficam aqui meus grifos emocionados de 2005:



porque o mundo foi e será uma porcaria, já o sei (quem não sabe), porém vale mais vivê-lo esculhambado e tudo como é que pensá-lo aristotelicamente, kantianamente, sartrianamente. ou que cantá-lo em letras de tango. (...) porque estava corroído de palavras, doente de palavras, embrulhado de palavras, assassinado de palavras, já quase morto de palavras;

-


dormir até que as tênues e maripôsicas mãos de ana acariciem sua face e sua tênue e melodiósica vozinha diga vamos meu amor, vamos já;

-

eu não posso sustentar o seu olhar, então fecho o livro que leio enquanto digo qualquer coisa sobre este tempo louco, o dia tão estranho, tão cinzento, tão reticente, tão ambíguo. chove? ainda não, mas creio que vai chover. é o inverno suspenso no ar e divertindo-se às nossas custas, cecilia. ou nos querendo. você acredita? acredita que o inverno nos queira? é claro que acredito, é claro que acredito! a garoa, o vento, o frio, tudo é terrivelmente carinhoso, tão terrivelmente carinhoso que te devora. como a cidade, como as mães, como as mulheres, como os amigos, como a gente. te querem para te comer melhor. e se nevasse eu acreditaria mais ainda. e seria mais bonito. mais ainda se nevasse, muito mais então se os copos de há pouco de há pouco os copos copos copos pocos pocos. palavras.


eduardo gudiño kieffer, para te comer melhor

pé esquerdo

é claro que os pigmeus
não cresceram
e acabaram por aí descalços
neuróticos atirando flechas

é claro que os cupidos
também atiram flechas
e estas acabaram todas
atingindo palavras

afinal a gente ama palavras
e as palavras obedientes
fazem silêncio
em correspondência

nos cartões enviados
para entes queridos
que acabarão esquecidos
em caixas de mocassim

para os dias de passeio
no pesque & pague
quando não se pesca nada
nem mesmo pneus de bicicleta
nem mesmo velhas botinas
nem mesmo sandálias de dedo
nem mesmo solas de mocassim
nem aqueles laços de mocassim
nem meias soquete próprias para mocassim

porque quase tudo é fantástico
e às vezes
é verdade
as palavras querem mesmo o seu fim
e quando querem com força
elas dissimuladas devolvem
as flechas e fingem
o fim

1.11.07

reality bites

é ridículo, é um alívio, é uma boa anedota pro futuro, é um ótimo motivo pra ficar com febre, adiar o cinema, fingir saúde, sentir nojo, rasgar fotos, achar bonito, comprar lençóis novos.