30.12.08

sabedoria

12.12.08

borges

(...)
Sem literatura só há um poço em que caímos e lá ficamos, os olhos estalados no escuro, ouvidos grudados nas paredes cheias de limo, esperando que algo aconteça. Mas nada acontece fora de nós. Nada acontece além do medo. Nossos corpos definhando e consumindo pedrinhas encontradas no chão. Linhas e agulhas e mecanismos de produção ainda estão estirados até o fundo do poço, ao nosso alcance, objetos que esperam pacientemente que sejam transformados em corda, uma corda que os mesmos deuses então puxarão, nos trazendo pra esse campo assim, agora nublado e sem montanhas à vista, mas pelo menos aberto. E com luz suficiente pra que vejamos nossos passos. E observemos, no espelho mais próximo, que ainda temos nove anos de idade. Que pisamos em solo argentino. E que somos Jorge Luis Borges.


abner dmitruk


8.12.08

bananas

the best part of love is when you say
you'll be my friend
we were wearing our pajamas
we were eating some bananas
I wanted to tell you
how I want to be your pal

(fourteen - beat happening)

5.12.08

saúde

não fosse aquele rapaz no ônibus me levar umas fitas numa sexta-feira, talvez eu não conhecesse minha banda preferida dos anos todos que viriam. e também não desenvolvesse uma erotomania ridícula da qual hoje me envergonho. de qualquer forma, no sentido de gostar muito de um texto ou música a ponto de se apaixonar, acho que uma pequena erotomania é saudável.

sempre esses discos e livros virão encomendados no ônibus. e outros, outros ônibus, colecionáveis e conectados. nada mais saudável do que roubar pra si aquilo que é valioso pra alguém.


4.12.08

28.11.08

cce

depois de encarar
dois porta-retratos
ingênuos

como se sente

o ladrão em sua máscara
preta e roupas
listradas

carrega traiçoeiro
meu microsystem
e meu coração

pela ciclovia

21.11.08

wes

mentirosa você disse que não gostava de wes anderson
sério não entendi?
acho que eu influencio o gosto das pessoas ao contrário às vezes
sabe, né? não precisa explicar, né?
eu comi um pêssego enorme agora há pouco
não sabia que existia pêssego tão grande
pêssego mancha?
kd vc
vou tomar meus comprimido tudo tchau
eu não gosto de wes anderson
mas gostei muito do darjeeling
e preferi falar sobre ele sem ficar com aquela frescura de
"nunca gostei de wes anderson, mas"
não é frescura.
até porque todo mundo gosta.
ah, vamos ser normais,
vamos gostar do que todo mundo gosta


sei lá eu vi tenenbaums e aquele do steve zissou mas nem aluguei esse aí.
acho que vou ver agora.


20.11.08

viagem

de todas as generalizações a respeito dos filhos únicos, uma é verdadeira: filhos únicos de fato sentem inveja de irmãos.
pares, trios, quartetos. o quinteto.
little women. irmãs gêmeas que se reencontram. bandas com membros de mesmo sobrenome.

se uma das grandes agonias da vida é arranjar boas companhias, o sortudo cidadão cuja mãe não tomou pílulas tem, no mínimo, uma: alguém com quem compartilha características, memórias e década de nascimento, sem esforço algum.

lá está o filho único, no vazio do seu quarto individual, na paz tediosa da ausência de brigas, com as barbies todas vestidas e os tabuleiros dos jogos inutilmente abertos, sem sobrinhos pra toda a eternidade.

talvez ele visite vários países e salte de pára-quedas e faça tatuagens e planeje sua própria família com uma mesa enorme pra almoços politicamente corretos pra oito - mas ele nunca terá irmãos.

(vamos parar com o drama)
é por isso que filmes de irmãos sempre me doem
(não consigo).

eu provavelmente não terei filhos, mas, caso tenha, cuidarei pra que ganhem companhia genética pra coisas como abandonar as malas quando o trem tá indo embora.

e viagem a darjeeling é muito legal.

assistam.

19.11.08

omelete

tem dias em que eu acho blog uma coisa muito brega,
um apanhado dos fragmentos mais mesquinhos das nossas existências.

e que gente legal não tá escrevendo nem lendo blog nenhum.
gente legal tá andando na rua ou fazendo omelete.

minha internet voltou pela 37ª vez esse ano.
pretendo escrever no blog com mais frequência.

rambo

meias roubadas até
o cachorro tem suas
urgências

8.11.08

tamires subindo as escadas com lupa

joelhos íntegros, tamires me olha
de soslaio, talvez não enxergue
nada e então não saiba

que meu cabelo

é cinza enquanto o dela é claro
lembra uma tigela mas creio
que tamires não se importa

se por acaso

desço correndo as escadas
e finjo não enxergar tamires
para não oferecer ajuda

26.10.08

verão cruel


cheiro doce de protetor solar
ruído branco de ventilador
poros abertos
tonturas
alcinhas

23.10.08

caindo na real

estou no inferno astral e sem internet.
estou no inferno astral, sem internet e, apesar dos esforços, não sou a winona ryder.

admiro aqueles que, quando nada dá certo, mantêm o bom humor.
ajustam os óculos na parte do meio, nunca as dos cantos, e lêem.
quem lê viaja.


os livros lá em casa (estou numa lan house chamada tribal, dentro do supermercado) esperam, são pacientes, mas toda vez que tento abrir o armário voam na minha cara uns papéis com desenhos feitos a lápis e dedicatória, dois pontos e, ai, meu nome.
imediatamente esqueço os livros e olho pros papéis durante horas.

9.10.08

beco das ilusões perdidas




adeus, UEM, adeus

4.10.08

esqueleto


os fones continuam pulando dos meus ouvidos, mas o G1 diz que não estou só:

Ninguém fala a respeito, mas um pedaço considerável da população não possui a formação cartilaginosa própria para manter fones no lugar. (Eu estou entre eles. Não conte a ninguém.) Que tal um pouco de compaixão por esses recorrentes sofredores? Onde estão os grupos de auto-ajuda? Onde estão as campanhas pela televisão?

onde?

resta saber se as soluções tecnológicas são tão inofensivas quanto fones pulando. eu, ignorante, não simpatizo com nada que mexa com meus OSSOS:

(os novos) São fones de ouvido de condução por ossos, significando que passam o som diretamente por seu esqueleto até seu ouvido interno, ultrapassando o tímpano.

ah, deixa, melhor não.



2.10.08

aquecedor

você anda mesmo
muito cansado,
precisando de colchões
de mola, macios
mas só o que vejo
é um rapaz magro
diariamente com os
mesmos agasalhos
e gaspar, o gato
que morreu pneumônico
enquanto alguém tomava
banhos muito longos
naquele ano

1.10.08

um peixe chamado wanda

descobri
que waldemar
se escreve com w
e ainda mora
na mesma cidade
com a mãe

30.9.08

para viagem

pra quem mora ou está de passagem por lá e também p/ os que estão longe, dia 08 começa a mostra sesc de artes desse ano.

e o amigo ricardo silveira tem um projeto de intervenção urbana, que na verdade são três e muito me emocionam:


poema para viagem

Pequenos poemas para serem destacados e levados para casa. Um lembrete para um momento de descanso. É com essa idéia que Poema para Viagem se apropria dos espaços e faz uma paródia com anúncios de venda (ou aluguel) de produtos e serviços com quem cruzamos em nosso dia-a-dia. O projeto tem curadoria de Ricardo Silveira, artista plástico e poeta.
Autores: Ademir Assunção, Alice Sant´Anna, Ana Guadalupe, Carlito Azevedo, Fabrício Corsaletti e Ricardo Silveira.

SESC Avenida Paulista & no SESC POMPÉIA
08/10 a 18/10.
Terça a sexta, 13h às 22h. Sábado e domingo, 10h às 19h.


poema de bebedouro

Objeto de nosso cotidiano que tem como função saciar a sede é agora utilizado como suporte literário. Textos do poeta paulista Ricardo Silveira serão aplicados em diversos bebedouros da unidade do Sesc Pompéia.

SESC Pompéia
08/10 a 18/10.
Terça a sexta, 9h às 22h. Sábado e domingo, 9h às 20h.


poema passageiro

Inserção de dez poemas inéditos de dez diferentes poetas na programação cultural das TVs dos ônibus da capital paulista e na programação da TV Minuto, que está presente nos aeroportos e livrarias da cidade.
A intervenção questiona a distribuição de poesia para círculos cada vez mais restritos. Curadoria de Ricardo Silveira.
Autores: Ana Rüsche, Angelica Freitas, Bruna Beber, Chacal, Leo Gonçalves, Marcelo Montenegro, Marcelo Sahea, Ricardo Domeneck, Ricardo Silveira e Rodrigo Garcia Lopes.
Apoio: Bus Mídia Televisão Coletiva e TV Minuto

09/10 a 17/10
Horário de circulação dos ônibus municipais.




29.9.08

ação games

alguém lembrou de E.V.O. - search for eden?





londrix

queria ir há alguns anos. quem não foi pode ir no ano que vem:

20.9.08

mec


vai no tim?
nao
vai?
nao
caro
sim e chato
quanto é? nem fiquei sabendo o preço
depende do show
mas tudo mais 150
que horror
eu ia viajar agora em outubro
mas acho que nem vou mais, tenho preguiça

poisé
eu fui pra sp esses dias


ver o joão
cantar
vou ficar aqui mesmo e gastar o dinheiro da viagem com bobagens

poisé, comprar lanche do mc por ai memso
sim
vc leu meus pensamentos
era lanche do mc




16.9.08

tá chegando a hora

por falar em sylvia plath, ela nasceu no mesmo dia que a minha mãe. no dia 27 de outubro também nasceram roy lichtenstein, kelly osbourne, patrick fugit, theodore roosevelt, graciliano ramos, maurício de souza e luiz inácio lula da silva (!).

e no meu, dia 6 de novembro, foram jonathan harris (do perdidos no espaço), sofia de melo breyner andresen (quem?), sally field ("nunca sem minha filha"), billy idol, ron underwood, ciro gomes, daniela cicarelli, rebecca romijin-stamos, o serial killer david parker ray, ethan hawke (meu mini-poster preferido da revista carícia uau) e a atriz pornô brasileirinha monica mattos (!)

ah, o que dizer dos escorpianos?

10.9.08

chefão hugo

CHEGA DOS MESMOS
CHEGA! CHEGA!
CHEGOU A HORA DA RENOVAÇÃO
(...)


mudando de assunto
estou vivendo uma situação sinestésica
hoje usei o perfume (novo) do meu irmão
e agora tenho a sensação de que há mais alguém na sala
qual perfume?
hugo boss
BOSS LEVEL
é! quando penso em boss lembro dos chefões
os chefões sempre com faquinhas e bumerangues
e jaquetas de couro
ou jeans
e canhões
sempre tinham as armas mais potentes
mas a fraqueza eram os movimentos repetidos e previsíveis
vc sempre podia desviar tres vezes, dar um pulo e um golpe
sim, pq será que eles eram assim?
repetia isso 38 vezes e passava o chefe
desafio meramente braçal
mecânico, alienado

às vezes dava pra pensar em outras coisas da vida enquanto se matava um chefe

3.9.08

farinha de milho

pouco antes da sua
chegada

cismei que trazia seringas
e fugiria pelas janelas
de madrugada

com a coleta
bem organizada
num estojo de amostras

o interfone há meses
mudo te obrigou a dar voltas
na quadra e os quadris

tão estreitos não sei como
se agüentava

29.8.08

capas de disco que nunca ouvi




fox n'wolf / in yr underwear

17.8.08

gravações pra minha mãe

e o acaso me deixou na porta da tua casa
faz silêncio e faz de conta que já me esperava
que eu tava pra chegar
pra ficar e pra sumir sem dar explicação
só pra torcer o pé
descendo a escada
de quem não me quer

nei lisboa, em "cena beatnik"
(ela gosta)

11.8.08

santa lúcia

vozes a quem ofereci livros
ela respondeu que ouvia
vozes no outro dia
disse que a única

parte boa era a fatia
de pão com margarina
dela ou das vozes
dentro dela de manhã
tomei banho nas dobras
presas ao soro as mesmas
calças andei pelas alas
quando a enfermeira
entrou pela trigésima
vez perdi a conta
das veias de criança
agora mais frouxas
ela ainda ouvia

8.8.08

delta

piolhos bem espremidos
e então lançados ao lixo
para os estalidos no plástico
está tudo bem os piolhos
agora mortos pelos seus dedos
de coca-cola seus dedos
de arroz parboilizado seus dedos
de vinagre branco seus dedos
magros e mornos seus dedos

3.8.08

louca

dizque "gila" significa isso na indonésia. não sei como se chama o idioma de lá.
é o hit do beach house e o universo místico das máscaras de animais.
sempre achei que casas na praia são meio assim mesmo.
até a próxima.


1.8.08

28.7.08

sonhos no meu e-mail

(r. c. , com quem eu não sabia que dançaria no sábado, escreveu e me enviou ontem)

era noite e era seu aniversário. estávamos bem longe de novembro. sua casa em santa catarina tinha umas portas de vidro, cheia de retratos grandes nas paredes.
seu quarto ficava ao lado de um banheiro e era bem mais alto do que a casa. eu entrava sem querer e adivinhava umas coisas guardadas em caixas bem finas como as de camisa e aquelas caixas estreitas para teclados. você às vezes entrava e dizia "o que estão fazendo aí? não mexam", com aqueles olhos que você sabe fazer. falava sobre eu conversar com um amigo velho dos seus pais que era médico e cobrava muito caro. falava que ele era muito legal e que poderia nos levar para londres. eu sorria. você depois me disse sobre pessoas sempre deixarem marcas e coisas fora do lugar na casa, depois da festa.
sua mãe tinha umas gaiolas com aqueles arames trançados esquisitos, sem nada dentro, você apontava para os outros.

e a loucura maior veio depois: não sei como, mas espaço e tempo se cruzaram na memória e você - e nós - estávamos em outra casa, não era festa mas os corredores estavam cheios de gente. você era nada mais do que hilda (hilst) e me chamava, pegava nas minhas mãos e dizia: "que unhas!" e outras coisas.

como hilda e ainda guadalupe - e não sei explicar como - você autografava uns livros para enviar para conhecidos; eu às vezes me afastava e ouvia você falar de longe em inglês com um amigo que se vestia com umas roupas brancas e meio orientais.

sentados na mesa, em lados opostos, você me perguntou de qual signo eu era, e me aconselhou a mostrar escritos para você - ela - ler com uns olhos mais maduros. eu não dizia muita coisa, mas concordava. eu sorria e sei lá mais o que fazia - não via meu rosto, mas sabia que sorria - para depois, você, toda eufórica e até mais jovem, me conzudir para uma lan house esquisita e mostrar assim, a esmo - sentada no colo de um moço que já estava lá - umas fotos de procissões, umas fotos de você com os braços enrolados nuns cordões brancos sagrados olhando para o nada e outras coisas assim.

em breve, saíamos dali para andar perdidos pelas calçadas e você a falar que era preciso viver mais fundo e outras coisas que não lembro muito bem porque já estava dormindo na superfície. e fui acordando com as imagens e as palavras muito nítidas de tudo. desci as escadas e agora aqui.
numa quinta-feira chuvosa,
com a boca seca, sem muito questionar por que te escrevo
- depois de tanto tempo.
mas achando que foi tudo muito bonito.

cheetos bola, pipoteca, biluzitos

vou ter que pagar gasolina do carro
vc tem carro?
compro agora em outubro
eu nem sei dirigir e não pretendo ter um carro

carros poluem o planeta
transporte coletivo tbm
com o carro vc chega mais rapido em qualquer lugar
ai que boba haha
pior que domingos sao os feriados
o onibus que vai pra casa da minha mãe
para de porteira em porteira
acho legal
legal?
vc nao fica nem sentado e nem deitado por mais de 5hrs
com crianças chorando
pessoas tossindo
gente comendo salgadinhos fedidos
é, SEMPRE tem alguém com salgadinhos fedidos

23.7.08

palitos

prometemos
telefonemas
numa dessas

noites de carona até
as fronteiras das menores
cidades mais frias


prometemos
machucar
um bocado

no escuro das calçadas
como os palitos
de dente e os pregos


22.7.08

ovos de amendoim

minha vida é bem triste aqui
é?
acho que se adaptar a um lugar novo demora em média cinco anos
cinco anos muito tristes
porra!
cinco anso?
sim
cinco asnos?
cinco aons
mai será?
é, ah, errei a brincadeire
tá na moda
esse e no final né
tipo galere
eu sabia que você sabia
mas eu nem uso, só tou brincando agora
entendi.
mas desenvolva a teoria dos 5 anos
é só que eu demorei em média 5 anos pra me adaptar aos lugares

e percebi que as pessoas normais também demoram
e geralmente resistem e querem voltar nos primeiros anos
vc morou em 4 lugares?
morei em 3 lugares
entao vc tem 15


em dois demorei 5 anos pra me sentir bem
eu me iludi.
fiquei eufórico - primeiro por ter um emprego novamente
nunca pensei coisas do tipo "estou indo pra capital, meu lugar. sou cosmopolita", na verdade me sinto bem baiano aqui. mas achei que poderia ter acesso a coisas bem bacanas
mas minha vida se resume à mesma prostração medíocre

tipo, cultura.
nao vi uma peça de teatro. um filme.
ah, é uma ilusão

pensar que o ambiente muda tudo
fui em dois shows só.
é o que eu penso quanto a morar em sp ou curitiba
sei que vou acabar passando o tempo todo no trabalho e no meu quarto
como eu faço
e, a não ser que tenha companhias muito boas

(que são raras em qualquer lugar do mundo),
não vou sair de casa
afinal não sou do tipo que vai ao cinema ou numa exposição sozinha
agora aqui, na ninha casa, eu tenho até sala. vou ali raramente.


é. aí eu penso que o que importa mesmo é o meu quarto
a cultura tem na internet
e as pessoas são chatas em todos os lugares
e, se for depender delas, vou morrer

aqui são mais
tenho até amigos aqui, mas são aspirações diferentes
sempre acho aqui tudo bem chato.
antes queria um bar que pudesse ouvir samba. aqui tem milhares.

tudo chato.
também tem aquilo de nunca valorizar as coisas
sempre acho tudo uma merda, depois me arrependo por não ter aproveitado
dá vontade de chorar
mas não chore hj nao


é verdade, eu nunca valorizo nada.

tava pensando esses dias. tenho hj um monte de coisa que sempre quis ter: 3 latões de skol na geladeira. ovinhos de amendoim no armário, um computador, óculos, vários sebos a duas quadras de casa
e daí?
a vida é bem cruel

julho de 1986

risonha como sempre


17.7.08

talento

ganhei um mp4 player do paraguai só pra lembrar da incrível sensação de sentir minhas orelhas cuspirem os fones de ouvido pequenininhos. faço até showcases da anomalia. com os dois bem colocados (direito e esquerdo) nos buracos dos ouvidos, sorrio, balanço levemente a cabeça e, em menos de 20 segundos,
puf -
lá vão os fones rejeitados.

8.7.08

atropelando o garfunkel


durante anos observei capas de disco que encontrava pela casa.
eram LPs que àquela altura raramente alguém ouvia
(acho que tinham enjoado)
e eu me arrependo por ter feito o mesmo.
fiquei só com as capas.
o rod stewart e seu terno vermelho em várias poses,
dire straits e as guitarrinhas no fundo azul,
kiss com olhos que brilhavam no escuro,
a rita lee meio na neblina vestida de kate bush,
rolling stones com silhuetas pontilhadas,
os carpenters sempre sorrindo,
o phil collins olhando para o nada e
(alguns tinham dedicatórias)
a maria bethânia sem blusa
coberta de insetos.

a maria bethânia estava sem blusa e coberta de insetos.

outro que muito me assombrava era o art garfunkel comendo codornas.
se você abrisse o disco, o veria chupando os dedos engordurados
e sorrindo com olhos de louco.
se olhasse de perto, veria que ele não tinha um dente.

nunca ouvi. fui ver agora que esse disco existe mesmo, é de 1979 e,
segundo o allmusic guide, um dos piores da carreira dele.

só não consigo achar as codornas que, juro, costumavam estar lá.


29.6.08

perfume de espíritos, tomates que brilham, eternamente sereia, edward grape, gilbert mãos de tesoura

fui pela primeira vez ao cinema porque minha mãe não tinha onde me deixar. eu e meus 6 anos, minha mãe e suas duas amigas. elas tinham cabelos armados e usavam uns coletes marrons e calças de cintura alta. já o rapaz que minha mãe namorava usava calças vermelhas e tinha cabelo comprido. um dia ele levou um super nes pra tentar me conquistar, mas o videogame não funcionou e eu o odiei mais ainda.
em outro, minha mãe disse que iria à farmácia e, quando voltou, eu preocupada avistei o rapaz e suas calças vermelhas. creio que nunca senti tanto ódio e nunca fiz gestos tão obscenos sem medo algum de reprovação. naquele dia fomos assistir a perfume de mulher. não entendi nada e só me preocupei com as balas de iogurte e canela, mas lembro que minha mãe gostou muito. suas amigas também.
vi perfume de mulher pela segunda vez aos 13 anos, quando já sabia quem eram os atores principais. não entendi nada.
alguns dias atrás, ansiosa zapeando a tv do jeito mais rápido possível, esbarrei com o al pacino cego (sim) ensinando tango à moça. depois ou antes, entre um canal e outro, o encontrei de novo numa conversa tensa com seus familiares. foi o bastante pra chorar de emoção. não sei se pelos meus seis anos e a ignorância das balas, meus 13 anos e qualquer outra coisa, minha mãe, que nem é cega, seu antigo caso de calças vermelhas e as amigas com quem perdeu contato ou, sei lá, o chris o'donnell - que nunca mais fez filmes - e o al pacino, que parecia muito cego (mas sabemos que não era).

também tinha a casa dos espíritos na programação dessa semana.

antes eles vinham de uma locadora de vídeo chamada london - que delícia era vê-los nas capas gordinhas de VHS. clássicos familiares cheios de mistério tipo tomates verdes fritos, radio flyer, o óleo de lorenzo, nell, mentes que brilham, minha mãe é uma sereia, feitiço do tempo, morrendo & aprendendo, eternamente jovem, um mundo perfeito. e os jovens charmosos que pretendíamos ser: edward mãos de tesoura, caindo na real, vida de solteiro, três formas de amar, benny & joon, antes do amanhecer, gilbert grape.

arquitetura ou diva

acaba logo esse copo d'água
a sala quando fica escura
quer escurecer sozinha

ao lado de uma sacada
que receberá escondida
a visita tardia da chuva

que planeja a hora certa
pra quebrar seus dentes
num copo d'água

19.6.08

obs

tudo mentira
não sou presunçosa
não como hot pocket sadia todas terças e quintas
não danço sozinha de pijamas marisa
não penso nos espíritos dos amigos mortos nessas circunstâncias

ritmo quente

não. você nunca me verá chacoalhando o esqueleto.
se por acaso viu, é provável que eu esteja em casa
remoendo o constrangimento
OU dançando sozinha
com medo de que amigos que morreram estejam assistindo.



17.6.08

amestrados & platônicos

das metas atropeladas pelos anos, ouvir música brasileira era (é) uma das principais. não (só) porque parece obrigatório conhecer o mínimo, mas porque, puxa, nossa língua é tão poética

(bicho-grilo)

(preconceito).

creio que dar uma chance à mpb não vai instantaneamente me encaixar malabares nas mãos
(preconceito).
então ouço vários discos nacionais no meio do chamber pop (?) de sempre. mas as coisas não mudam de um dia pra outro (e nem precisam) e ainda acabo nos hits baratos, de valor sentimental, da espécie joão penca & seus miquinhos amestrados, prediletos quando eu era criança - e eles atuais.
muito lirismo:

não diga nada para a sua mãe
apague a luz pra eu te ver melhor
eu vou chorar lágrimas de crocodilo
vou inundar o seu umbigo

-

outro dia, me contaram que o bonitão ted bundy (via índice da maldade) continou recebendo cartas de fãs apaixonadas durante anos depois da morte na cadeira elétrica, no dia 24 de janeiro de 1989.
segundo a wikipédia, suas últimas palavras tinham a ver com dar amor pra família e amigos.

franny diz:

"I'm just sick of ego, ego, ego. My own and everybody else's. I'm sick of everybody that wants to get somewhere, do something distinguished and all, be somebody interesting."

"I'm not afraid to compete. It's just the opposite. Don't you see that? I'm afraid I will compete--that's what scares me. (...) I'm sick of myself and everybody else that wants to make some kind of a splash." She paused, and suddenly picked up her glass of milk and brought it to her lips. "I knew it," she said, setting it down. "That's something new. My teeth go funny on me. They're chattering. I nearly bit through a glass the day before yesterday. Maybe I'm stark, staring mad and don't know it."

j.d. salinger
em 1961

12.6.08

como minhas sobrancelhas

por acaso achei uns cartões feios (alguns engraçados, outros não, talvez nenhum) num flickr:






















11.6.08

pijama de sorriso

num roteiro enxuto
há uma cena pra tudo

talvez por isso esse garoto
esprema tanto os olhos


pra cena obrigatória

de adeus ou até outra hora

que acontece aproximadamente
um tempo depois daquela
outra cena

na qual o garoto
radiante sorria
como um desenho de criança estampado num pijama
ou espremia
infinitamente melhor
a parte de baixo da cara

10.6.08

cacófato


a.ná.gua feminino

saia branca

1976. CARNEIRO, Geraldo Eduardo. Na busca do sete‐estrelo. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de. 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007. p. 155.


No alto as janelas
com claros anjos decapitados
Cristal de anáguas.

-



"As anáguas são fundamentais para dar a forma a uma saia lolita. De tule, filó, entretela ou qualquer outro tecido 'armado', ela costumam ser indispensáveis. O formato ideal é o de sino.


Nota: Anáguas não devem ser usadas sem uma saia por cima."



4.6.08

lenora & eu

uma floricultura no caminho
do feriado e o arranjo
pra mãos que adoram
espinhos

na trama complexa
de um vestido aéreo
em postos de gasolina
estreitos

que exigem braços tensos
pra manter seguro o que
deus sabe eu tenho
espelhos

em casa (ela diria)
e assim mesmo não posso
continuar aqui
estática

hoje é um dia ótimo
os carros todos podem
deixar em paz meu
espírito

2.6.08

uma cor

amanhã às 20h no teatro calil haddad acontece a abertura da exposição monocromo
do multitarefas ademir kimura & seus quadros & esculturas
(e leituras múltiplas em cores que contêm todas):








30.5.08

artesanato

acabo de ver na/o frufru um meme legal:
1) o título da primeira página randômica do http://en.wikipedia.org/wiki/Special:Random será o nome da sua banda imaginária (nessa parte eu roubei, porque azarada tirei antonio lederma e ságua de tánamo e não quis)
2) as últimas 4 palavras da última frase da página http://www.quotationspage.com/random.php3 serão o título do seu disco.
3) a terceira foto do http://www.flickr.com/explore/interesting/7days/ será a capa (é só torcer pra que não venham flores bregas e céus de windows, como no meu caso).

não existe um gerador pra deixar isso bonito, então faça à mão. sonho realizado: minha banda nursing research tem um disco chamado who can't read them.




29.5.08

la fontaine



what can I do / when the bird's got to die / what can I do / when she's too weak to fly / what can I do / when she's calling my name / she's crying mama, help me to live / what can I do

what can i do? - antony and the johnsons


there was a girl who talked to geese / she understood them and they her / one day she looked in a crystal stream / and saw in its bed a diamond / she picked it up and put it in her hair / as she did so she turned into a geese / it was then revealed that the other geese / she magically had understood / were once human like her

girl and the geese - cocorosie


(risada maligna)

28.5.08

top 5 filmes arruinados pelo bom-mocismo

1. lars & the real girl

lars é um cara solitário que mora na garagem e nunca teve uma namorada. de uma hora pra outra, ele compra uma boneca de tamanho real e estende o papel específico (ignorado por ele) de bianca a uma convivência absurda com a comunidade local. o pessoal da cidade é de uma tolerância de arrancar lágrimas. e isso só contribui pro lars ser um total idiota.

não sei o que aborrece mais: filme de distúrbio psicológico em que tudo dá errado (e o protagonista acaba babando num manicômio) ou filme de distúrbio psicológico em que a comunidade unida jamais será vencida. e tem também aqueles que só dão raiva, tipo as férias de mr. bean e reine sobre mim.

a boneca comprada pela internet, na história delirante inventada pelo lars, é uma missionária e veio do brasil. tipo o blanka do street fighter, mas com um fundo de realidade. e a coleguinha de trabalho, cujo urso de pelúcia precisa de respiração boca-a-boca, não era tão boa moça em outros filmes (versátil).














cera de ouvido

marc johns em post-it:


26.5.08

caçadores de recompensa

as sacolas de loja
hoje habitadas por cabos

de videocassete
e velhos óculos escuros
substituem os lençóis
que nas horas de emergência
viram trouxas
como os que ficam
nervosos por nada:
heróis que nunca
vão à praia
pra conhecer o som stereo

das conchas

19.5.08

fantástico mistério

tava lembrando de uma palestra do pedro bandeira que ia acontecer uns anos atrás na universidade. me inscrevi e tava animada pra ir, mas acabei dormindo. quando acordei, confusa e confundindo a existência, a palestra já tinha terminado.

mas esse fato verídico não constitui um post.

12.5.08

da vontade de engolir

I love you so much I could eat you

é a frase de impacto desse filme chamado trouble every day (aqui desejo & obsessão, pelo menos não é desejo proibido), dessa diretora francesa chamada claire denis (agradecimentos à mona lisa), com o vincent gallo num habitual personagem de sobrenome brown e essa história de gente faminta que serve de metáfora para a falta de limites do amor & os brindes que sempre vêm com ele.

a gente não devia gostar de ver gente sofrendo tanto por amor (e sangrando litros), o que é mesmo um problema diário - e a gente gosta. outra incoerência inevitável e sincera é que um filme tão brutal seja também tão delicado. e ainda tem a trilha sonora do(s) tindersticks:




7.5.08

dorzinha



lloyd cole & the commotions - cut me down

6.5.08

papéis amarelados são lindos


(peguei no weheartit)

confecção própria


jogando as palavras às traças por um momento, você se concentra em outras alegrias diárias. por exemplo, a intimidade de conhecer as peças de roupa de alguém. todas, não só a blusa verde que a pessoa da mesa ao lado sempre repete. todos os casacos com capuz, blusas peludas por dentro, outras que penicam, camisetas estampadas, calças, bermudas, bolsos escondidos. pijamas das lojas de departamento, moletons velhos, shorts de ficar em casa e o que há por baixo de tudo, que são outras coisas.

convivi com uma pinta nas costas (que não eram as minhas) que tinha muito jeito daquelas que viram câncer. sempre avisava do perigo, um aviso automático ignorado, mas achava aquilo tudo muito simpático. olhar de perto as costas, a pinta, o possível futuro câncer de pele.

quero dizer que você acaba se tornando um especialista nos trajes e nos detalhes do outro, até provavelmente confundir as peças todas, não cuidar direito e acabar emprestando e perdendo, como faria com as suas coisas.

29.4.08

saco



richard maloy

seleta espremida

um toque no botão
ele precisa
de um empurrão
daqueles
pra conseguir
entrar na piscina
sorrir a tempo
de chatear
as visitas
sei que suas
pretensões são
poucas
latas de ervilha
já as palavras

as palavras
andam
ariscas

24.4.08

2 em 1 coelho

pelo menos
mais tarde
você admite

que de tédio
não morreria

só de cansaço
e agonia

talvez um pouco
de raiva

mas nunca
de tédio

que é apelido
pra tudo que
é chato


e eu só erraria

seu nome
completo

memebon


pra aliviar tensões, etc.


22.4.08

disco riscado disk amizade


não falaremos sobre o karma, o retorno, os círculos. as mesmas piadas em novos formatos. suas palavras brotando do meu teclado. todos com a mesma cara dentro do capacete. ensaios de acenos na faixa de pedestres.

toda a interferência que já conhecemos, uma espécie de ley de murphy
(se a comunicação pode falhar, ela vai).

não falaremos dos auges, dos acidentes, das ondas, das catástrofes naturais e dos declínios. impérios e papéis dobrados e amolecidos em carteiras há décadas, restos dos restos dos grandes acontecimentos:

quadros que parecem ficar muito bem lado a lado.

por falar em quadros, falaria sobre webcomics. por falar em assepsia, indicaria o ordinary things (que devia parar de tentar ser post secret, o que me faria lembrar de griffin & sabine, que eu acho até legal), o left handed toons e o idiot comics:


17.4.08

roy orbison enrolado em filme plástico

o tal ulrich haarbürste diz gostar de escrever estórias sobre o roy orbison sendo embrulhado em filme plástico. caso você também goste de escrever sobre o roy sendo completamente (não vale só um pedacinho) embrulhado em filme plástico, pede que escreva pra ele.

no site, além dos contos do roy em plástico filme (também no natal e no espaço), tem uns haikais escritos por outros fãs e uma entrevista. eu compraria o livro.

15.4.08

super dez




(já) amigos fotógrafos. a abertura é hoje à noite. não irei de guarda-chuva.

10.4.08

ets




9.4.08

resultado da busca

preferível não
falar nada

a imaginar por
horas você triste
no ônibus

as pessoas rindo
da sua camisa
de banda

eu rindo
da sua camisa
de banda

eu rindo
das suas
camisas todas

preferível não
falar nada

a ficar procurando
seu nome
no google

7.4.08

max laranjinha

espremedor
das gotas do dia
perdoe
essa sede
gomo que se

desprende
aos poucos
e lateja
um dedo na ferida
e outro

esmagado na porta

4.4.08

picos gêmeos

um livro dentro do outro
a avó a passos lentos
vem empilhar toalhas de rosto

um livro dentro do outro
pra adotar silêncios
e banhos de assento

um livro dentro do outro
é um recado seco
pra daqui a algum tempo

um livro dentro do outro
a avó não descobre
o que ando lendo

1.4.08

mãos de pianista

ansiedade não
combina com estampas
floridas

as férias acabam
e parecem
continuar

os sons
daquelas salas
isoladas

com cuidado
compõem música
pra tocar



maus lençóis alheios

qualquer transtorno
se dissolve em
números

pares de carneiros
tentando em vão
acalmar os sujeitos

que suspiram muito
e então
não
dormem

mapa de tesouro

1.

menino vestido de pirata
eu sei que os carnavais
têm sua graça

por isso eu respiro
engraçado

quanto te vejo
sinto meus braços

acenando para
navios parados



2.

menino vestido de pirata
quando telefona
é pra me descobrir
os enjôos
que disfarça
prendendo bem o fôlego
antes de discar meu
número

27.3.08

edie



please, mr. eggman
please don't ever quit your job
l'll always need--want eggs,
always and always and always

miss edie, as long
as there are chicken layin'
and truck drivin',
and my feet walkin'

you can be sure
that l will bring you
the finest of the fine
the largest of the large,
and the whitest of the white

in other words
that thin-shelled ovum
of the domestic fowl
will never be safe

as long as there
are chicken layin'
and l'm alive
because l am your eggman

17.3.08

primeiros socorros

se há
alguém
em perigo

alguém há
de fechar os olhos
ouvidos

correr pra fora
na direção
contrária

e não ver
as bolhas
nos joelhos

de tamires

a tosse
muito
comprida

de tamires

a carne
cozida
do almoço

a mancha
de xarope
não quero

ver tamires





6.3.08

manual do escoteiro


nós
dando
nós

nas
cordas

nas
tripas

provocando
cócegas

procurando
companhia


você
está

com
você
todos
os dias




24.2.08

puxa

meu ídolo (?) vincent gallo
confiante oferecendo seus serviços pessoais.

20.2.08

sem licença para dirigir

coreys esquecidos
e relembrados
e esquecidos de novo
e sempre lembrados
nas reprises
intervalos
covinhas
pelo corpo
você é corey
haim
eu sou corey
feldman

enciclopédia ilustrada trópico

depois de condenar a carinhosa coleção de cd à paralização eterna, será a internet capaz de destruir a função das revistas? de onde nascem os mosquitos de banheiro? são as bancas de jornal lugares perigosos? por que sentimos dor de barriga em bibliotecas públicas? como são feitas as esponjas de banho? por que parecemos alcançar e absorver nosso potencial máximo apenas quando na expectativa de?

p****

revistas piauí já me acompanharam nas estantes poluídas, nos postos de saúde e nas rodoviárias. há pouco tempo tive a pachorra de dizer que não tinha paciência pra elas (as revistas piauí). dias depois estava rindo sozinha com uma delas nas mãos, frustrada por não ter comprado todas as anteriores. ainda não conheço as coisas boas da vida, os cumprimentos manuais bacanas, as gírias da década passada. revistas piauí, tenham paciência comigo.

28.1.08

blues velvet



8.1.08

tampinhas

a vida deve ser prática
imagine o trabalho árduo
de descascar laranjas

que como nós não têm
metades
e sim
tampinhas
aquelas partes menores
e mais doces