29.6.08

perfume de espíritos, tomates que brilham, eternamente sereia, edward grape, gilbert mãos de tesoura

fui pela primeira vez ao cinema porque minha mãe não tinha onde me deixar. eu e meus 6 anos, minha mãe e suas duas amigas. elas tinham cabelos armados e usavam uns coletes marrons e calças de cintura alta. já o rapaz que minha mãe namorava usava calças vermelhas e tinha cabelo comprido. um dia ele levou um super nes pra tentar me conquistar, mas o videogame não funcionou e eu o odiei mais ainda.
em outro, minha mãe disse que iria à farmácia e, quando voltou, eu preocupada avistei o rapaz e suas calças vermelhas. creio que nunca senti tanto ódio e nunca fiz gestos tão obscenos sem medo algum de reprovação. naquele dia fomos assistir a perfume de mulher. não entendi nada e só me preocupei com as balas de iogurte e canela, mas lembro que minha mãe gostou muito. suas amigas também.
vi perfume de mulher pela segunda vez aos 13 anos, quando já sabia quem eram os atores principais. não entendi nada.
alguns dias atrás, ansiosa zapeando a tv do jeito mais rápido possível, esbarrei com o al pacino cego (sim) ensinando tango à moça. depois ou antes, entre um canal e outro, o encontrei de novo numa conversa tensa com seus familiares. foi o bastante pra chorar de emoção. não sei se pelos meus seis anos e a ignorância das balas, meus 13 anos e qualquer outra coisa, minha mãe, que nem é cega, seu antigo caso de calças vermelhas e as amigas com quem perdeu contato ou, sei lá, o chris o'donnell - que nunca mais fez filmes - e o al pacino, que parecia muito cego (mas sabemos que não era).

também tinha a casa dos espíritos na programação dessa semana.

antes eles vinham de uma locadora de vídeo chamada london - que delícia era vê-los nas capas gordinhas de VHS. clássicos familiares cheios de mistério tipo tomates verdes fritos, radio flyer, o óleo de lorenzo, nell, mentes que brilham, minha mãe é uma sereia, feitiço do tempo, morrendo & aprendendo, eternamente jovem, um mundo perfeito. e os jovens charmosos que pretendíamos ser: edward mãos de tesoura, caindo na real, vida de solteiro, três formas de amar, benny & joon, antes do amanhecer, gilbert grape.

arquitetura ou diva

acaba logo esse copo d'água
a sala quando fica escura
quer escurecer sozinha

ao lado de uma sacada
que receberá escondida
a visita tardia da chuva

que planeja a hora certa
pra quebrar seus dentes
num copo d'água

19.6.08

obs

tudo mentira
não sou presunçosa
não como hot pocket sadia todas terças e quintas
não danço sozinha de pijamas marisa
não penso nos espíritos dos amigos mortos nessas circunstâncias

ritmo quente

não. você nunca me verá chacoalhando o esqueleto.
se por acaso viu, é provável que eu esteja em casa
remoendo o constrangimento
OU dançando sozinha
com medo de que amigos que morreram estejam assistindo.



17.6.08

amestrados & platônicos

das metas atropeladas pelos anos, ouvir música brasileira era (é) uma das principais. não (só) porque parece obrigatório conhecer o mínimo, mas porque, puxa, nossa língua é tão poética

(bicho-grilo)

(preconceito).

creio que dar uma chance à mpb não vai instantaneamente me encaixar malabares nas mãos
(preconceito).
então ouço vários discos nacionais no meio do chamber pop (?) de sempre. mas as coisas não mudam de um dia pra outro (e nem precisam) e ainda acabo nos hits baratos, de valor sentimental, da espécie joão penca & seus miquinhos amestrados, prediletos quando eu era criança - e eles atuais.
muito lirismo:

não diga nada para a sua mãe
apague a luz pra eu te ver melhor
eu vou chorar lágrimas de crocodilo
vou inundar o seu umbigo

-

outro dia, me contaram que o bonitão ted bundy (via índice da maldade) continou recebendo cartas de fãs apaixonadas durante anos depois da morte na cadeira elétrica, no dia 24 de janeiro de 1989.
segundo a wikipédia, suas últimas palavras tinham a ver com dar amor pra família e amigos.

franny diz:

"I'm just sick of ego, ego, ego. My own and everybody else's. I'm sick of everybody that wants to get somewhere, do something distinguished and all, be somebody interesting."

"I'm not afraid to compete. It's just the opposite. Don't you see that? I'm afraid I will compete--that's what scares me. (...) I'm sick of myself and everybody else that wants to make some kind of a splash." She paused, and suddenly picked up her glass of milk and brought it to her lips. "I knew it," she said, setting it down. "That's something new. My teeth go funny on me. They're chattering. I nearly bit through a glass the day before yesterday. Maybe I'm stark, staring mad and don't know it."

j.d. salinger
em 1961

12.6.08

como minhas sobrancelhas

por acaso achei uns cartões feios (alguns engraçados, outros não, talvez nenhum) num flickr:






















11.6.08

pijama de sorriso

num roteiro enxuto
há uma cena pra tudo

talvez por isso esse garoto
esprema tanto os olhos


pra cena obrigatória

de adeus ou até outra hora

que acontece aproximadamente
um tempo depois daquela
outra cena

na qual o garoto
radiante sorria
como um desenho de criança estampado num pijama
ou espremia
infinitamente melhor
a parte de baixo da cara

10.6.08

cacófato


a.ná.gua feminino

saia branca

1976. CARNEIRO, Geraldo Eduardo. Na busca do sete‐estrelo. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de. 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007. p. 155.


No alto as janelas
com claros anjos decapitados
Cristal de anáguas.

-



"As anáguas são fundamentais para dar a forma a uma saia lolita. De tule, filó, entretela ou qualquer outro tecido 'armado', ela costumam ser indispensáveis. O formato ideal é o de sino.


Nota: Anáguas não devem ser usadas sem uma saia por cima."



4.6.08

lenora & eu

uma floricultura no caminho
do feriado e o arranjo
pra mãos que adoram
espinhos

na trama complexa
de um vestido aéreo
em postos de gasolina
estreitos

que exigem braços tensos
pra manter seguro o que
deus sabe eu tenho
espelhos

em casa (ela diria)
e assim mesmo não posso
continuar aqui
estática

hoje é um dia ótimo
os carros todos podem
deixar em paz meu
espírito

2.6.08

uma cor

amanhã às 20h no teatro calil haddad acontece a abertura da exposição monocromo
do multitarefas ademir kimura & seus quadros & esculturas
(e leituras múltiplas em cores que contêm todas):