24.11.09

av. morangueira

a avenida sabe
dos tornozelos torcidos
dos pedestres as tensões
daquele cuja casa foi invadida
três noites antes a avenida
já sabia o tamanho dos chinelos
39 desvirados pra evitar tragédias
maiores como as contas
telefônicas quando você sorri

22.11.09

táxi para o inferno


a mesma cidade pequena
antes atravessada a pé
só pela agonia de dormir junto
agora tomada por pilhas de lixo
(certos coadjuvantes deixam rastros, mas separam o vidro)

sempre depois do protagonista
tirar a roupa de baixo o assassino
atacará as barracas de acampamento
erguidas com devoção e dificuldade
(ele nunca decepciona)

numa sexta-feira alguém
sempre perderá o sinal telefônico
pela primeira e última vez como
todo filme de terror ensina

9.11.09

bem-amado

perto de coisas como uma galera que vê trechos do futuro mas continua chata, a história de um quarentão que se prostitui até parece entretenimento de qualidade. claro que toda série tenta ir muito além da sinopse e, com um pouco de paciência, qualquer um se surpreende com, digamos, as personalidades dos adolescentes excluídos que interpretam hinos da música pop num coral do colégio.

como o comboio de carnivàle não era feito só de artistas de circo, um cara que se prostitui é muito mais que um garoto de programa mais velho. é por isso que você consegue indicar hung pra sua tia sem sequer mencionar a atividade do protagonista e, sem muito esforço, considerar esse o seriado mais ternura das últimas temporadas.

acontece que ray drecker, o bem-dotado do título nacional, que está prestes a ser demitido do seu emprego ruim e tem um casal de filhos incrivelmente inadequados, certa madrugada acorda com sua casa destruída por um incêndio e passa a viver numa barraca de acampamento, enquanto é humilhado pelo vizinho rico e pela ex-mulher. depois de ir a uma palestra motivacional pouco confiável, ele resolve usar seu maior talento (hum hum) pra ganhar dinheiro, com a ajuda de uma poeta frustrada esquisitinha que tenta fazer pães recheados com poemas. assim nasce a consultoria da felicidade, um jeito bonito de chamar os serviços que ray e tanya passam a oferecer.

a cada não-programa, ray, tanya e os outros personagens não menos perdidos reconstroem suas vidas e às vezes encontram mel de abelha, enquanto a primeira temporada de hung nos presenteia com reflexões sinceras e bem-humoradas sobre homens, mulheres, homens inseguros, mulheres tristes, adolescentes feios, possíveis contratantes de sexo pago e outras maiorias adoráveis que a gente talvez nunca tenha visto na TV.

3.11.09

álbum de aniversário

o bolo logo se espatifa
na calçada se a rua dá mais voltas
que os barcos

as velas desejam chegar logo
logo em casa logo sem o amarelo
das fotos



inércia


• sf (lat inertia)
Fís Propriedade que têm os corpos de não modificar por si próprios o seu estado de repouso ou de movimento.
Falta de ação, falta de atividade.
Preguiça, indolência, torpor.
Incapacidade.
Ignorância de qualquer arte.
Resistência passiva. I. cultural, Sociol: capacidade revelada por determinados elementos culturais de resistir à mudança e de perpetuar-se em um meio cultural a que não se ajustam.
(michaelis)

(...) todos os corpos são "preguiçosos" e não desejam modificar seu estado de movimento: se estão em movimento, querem continuar em movimento; se estão parados, não desejam mover-se. Essa "preguiça" é chamada pelos físicos de Inércia e é característica de todos os corpos dotados de massa.
(wikipédia)