3.12.10

gostar dos outros

1.
moedas pro leite caro do filho que não temos
canetas-calendário que apenas se imaginam perfumadas
acompanhadas de um folheto sobre o perigo das drogas
gostar dos outros é cambalear pelo ônibus
vendendo a marca de chiclete que ninguém gosta

2.
gostar dos outros é ir a uma festa americana
levando salgados numa vasilha amarelada
uma vasilha com tampa que não encaixa
torcendo pra que você coma
eu só trouxe pra você
os meus salgados

11.11.10

ingresso pro lugar certo

depois de chegar enfim
ao lugar certo
carregar malas e ganhar
calos nas mãos

você deixa que a música
acabe e perde os motivos
pra planejar o futuro

existe cartão de crédito pra tudo
no lugar certo
você não precisa mais se preocupar
em chegar a outro

o lugar certo
é como um seriado de TV cancelado
e você pensa ser o único ator
que vai fazer sucesso depois

29.9.10

bolsa pesada de carteiro

um carteiro pra chamar
de seu
entre outros nomes
exceto o dele
se a carta não chegar
nem depois de meses
de torcida dos parentes
um carteiro pra colocar a culpa
sem remorso em caso de acidente
o carteiro não levará mágoa nenhuma
só cartas
em sua bicicleta
porque mágoa seria peso extra
e peso extra todo carteiro evita
todo bom carteiro nunca abre ou espia
nem por um minuto a correspondência
dessa rua
ou da sua

13.9.10

calor no inverno

até calafrios de febre
podem substituir ventiladores
quando faz calor em pleno inverno
e alguém esquece de puxar os fios
do frio

a cidade e todos que conhecemos
não andam se entendendo
nós, ao contrário da cidade,
quase sempre lavamos sozinhos
e com capricho
os cabelos

6.9.10

madeira e alvenaria

pelas frestas
ferrugens e finais

olhar bem um canto do assoalho
gritar na varanda

uma vida inteira
pra tentar descobrir
onde começam

a reforma e a pintura
das casas velhas que são
quem a gente quer bem

5.9.10

quem empresta

os livros preferidos nas edições exatas
as mesmas orelhas nas mesmas páginas
um autor citado nas conversas
em que se tenta mostrar conteúdo
agora nas mãos ásperas e sem escrúpulos de quem empresta
logo os filmes que você mais gosta
com o ator que lembra um irmão ou amigo
um personagem que se parece com você dez anos antes
e agora dez anos depois não queria entregar de mão beijada
pro interior das bolsas manchadas de quem nunca devolve
os melhores e mais doloridos discos da sua vida
de preferência com uma história parecida
pra contar em mesas de diferentes cidades
onde os presentes serão estranhamente próximos
aos da outra cidade e ao dono da primeira estante
de repente quem devolve logo tenta te encontrar
de novo ou, pelo contrário, quem não sente nada
é que devolve antes

1.9.10

o amaciante mais barato do mercado

a máquina de lavar
modelo tanquinho
destrói semanalmente
os tecidos íntimos

10.8.10

triângulo das bermudas

na enchente quem salvará
nossos grampos
clipes e alfinetes

o resgate não virá
para ramonas
pregos e pentes

um carro desgovernado
esfregará ex-bermudas
pelo chão e paredes

23.7.10

diabetes de tamires

nossa sala enfileirada
na quadra

pirulitos entregues
pelas professoras

lanço olhares cúmplices mas esqueço
que tamires não enxerga
tamires não faz nada direito

só abre agora o pacote de amendoim
salgado que só ela
só ela ganhou

22.7.10

no rio de janeiro


peso pena terá lançamento carioca no dia 24,
no sebo baratos da ribeiro.

mais informações no http://pesopena.wordpress.com/

28.6.10

antes das livrarias

por 20 reais, você pode receber na sua casa poemas selecionados & ilustrados de dez poetas contemporâneos com apresentação do chacal. basta enviar um e-mail para o editor vanderley mendonça (vanderleymeister@gmail.com) com o assunto peso pena.

16.6.10

peso pena


em são paulo.
estarei lá. espero que levem câmeras, porque a minha tá quebrada.

25.5.10

perdendo dedos

com as orelhas quentes
de quem nota a perda
dos documentos
e da carteira
dos óculos
e das lentes

como quem acorda
numa sessão de hipnose
com fitas K7
pensando que hoje
é ontem
ou ano que vem
ou um hoje menos coerente
a gente se perde

como se interrompesse
a frase mais importante
como um pedestre distraído
atravessando a ponte
como quem se levanta sem volta
pra ir na esquina

a gente se perde
como se dormisse num filme
que acabou de começar

24.5.10

as fitas do angelino

congelados com angelino
os clipes gravados da TV

minha amizade estudada com a sobrinha
só pra esperar a tarde em que ele me chama
pra sala

e me elege a caligrafia oficial
de todas as detalhadas listas explicativas
das suas fitas

grande dia

30.4.10


peso pena


26.4.10

dívida com a vendedora de passe

respondo qualquer coisa
e compartilho o cartão com as senhoras
afinal já somos íntimas
todas levemente abatidas
pela manhã na linha 466

a vendedora de passe de ônibus
pergunta de você a cada 3 meses

você na sua linha ___

deve saber que eles já não vendem
os passes de papel por aqui

6.4.10

as orelhas d'os prêmios de cortázar


— Toda essa conversa é bastante inútil — disse. — Quando comecei a ler romances, e olhe que isso me aconteceu em plena infância, tive desde o começo a sensação de que os diálogos entre as pessoas eram quase sempre ridículos. Por uma razão muito especial: é que a menor circunstância os teria impedido ou frustrado. Por exemplo, se eu tivesse entrado no meu camarote e você tivesse resolvido ir para o convés, em vez de vir tomar uma cerveja. Por que dar importância a uma troca de palavras que acontece devido à mais absurda das coincidências?
— O mal — disse Medrano — é que isso pode se estender facilmente a todos os atos da vida, inclusive ao amor, que até agora me continua parecendo o mais grave e o mais fatal. Aceitar seu ponto de vista significa banalizar a existência, lançá-la no puro jogo do absurdo.
— Por que não? — disse Claudia.



***

— Além do mais, eu lhe trago novidades do octopato — disse Persio.
Jorge fincou os cotovelos na mesa.
— Achou-o debaixo da cama ou na banheira? — perguntou.
— Trepado na máquina de escrever — disse Persio. — Que é que você pensa que estava fazendo?
— Escrevendo a máquina.
— Que garoto inteligente! — disse Persio a Claudia — Claro que estava escrevendo a máquina. Tenho aqui o papel, vou ler um pedaço. Diz: "Sai de viagem e me deixa, como um velho novelo de lã. Espera-o, a cada instante, o pobrezinho octopato". Assinado: "O octopato, com um carinho e uma censura".
— Coitado do octopato — disse Jorge. — Que é que vai comer quando você estiver ausente?
— Fósforos, lápis, telegramas e uma lata de sardinhas.
— Não vai conseguir abri-la — disse Claudia.
— Ah, sim, o octopato sabe — disse Jorge.


***

Mais uma vez, Persio sente que, nessa hora de iniciação, o que cada passageiro chama de amanhã pode instaurar-se sobre bases definidas esta noite. Sua única ansiedade é o importante da opção possível: guiar-se pelas estrelas, pelo compasso, pela cibernética, pela casualidade, pelos princípios da lógica, pelas razões obscuras, pelas tábuas do assoalho, pelo estado da vesícula biliar, pelo sexo, pelo caráter, pelos palpites, pela teologia cristã, pelo Zend Avesta, pela geléia real, por um guia de estradas de ferro portuguesas, por um soneto, pela Semana Financiera, pela forma do queixo de Dom Galo Porriño, por uma bula, pela cabala, pela necromancia, por Bonjour tristesse, ou simplesmente ajustando a conduta marítima às animadoras instruções que vêm em toda latinha de pastilhas Valda?


júlio cortázar, os prêmios


24.3.10

o poema distante

o poema não aparece há três semanas
quando procurado nas revistas, se afasta
até a última página

do livro preferido não há mais poema
resta o leitor relapso, talvez esquizofrênico
que confundia romances policiais ao contrário

folhas dos cadernos brochura ao lado
de uma cama de solteiro sem lençóis, colchão exposto
onde escreveu seus versos mais estúpidos

mas não piores que outros
que ainda virão antes que o poema volte
se é que volta

o poema não está a fim
de conversa
o poema recusou convites
pra comer fora

dizem que a ausência de mensagens
é sinal de partida definitiva, mas há esperança
do celular do poema estar sem bateria

resto de ave recheada

palavra presa
que nas horas vagas
vira nó
na garganta

até as formigas
se pudessem
te carregariam
pra fora

24.2.10

lista de afazeres

aqui
bem
aqui as coisas continuam
as mesmas
mesmos copos de plástico
mesmos fios de cabelo castanho nos pratos
recolhidos rapidamente enquanto
um de nós serve
o almoço

17.2.10

mafiosos


saiu hoje a revista virtual de edição única be my mafia family, uma iniciativa da querida ana rüsche com a colaboração de outros 11 poetas e seus poemas sobre/de fracasso. meu poema fala da rejeição com batata frita -- ou outros incidentes com batata frita. adequado ou não?

o poema já esteve aqui no blog, mas a ana também nos convidou a escrever notas constrangedoras (no bom sentido) de bastidores.


independente da sua escolha de lanches e fracassos, baixe aqui

e leia a matéria que saiu na folha online:

Revista de poesia para Kindle e Sony Reader será lançada nesta quarta-feira

PAULA DUME
colaboração para a Livraria da Folha
A revista de poesia "Be My Mafia Family!", cujo nome refere-se ao jogo "Mafia Wars" do Facebook, terá lançamento virtual nesta quarta-feira (17).

Edição única, a publicação reúne 12 poetas e também amigos que decidiram compartilhar seus fracassos em forma de versos. "Cada um nos entregou um poema que fala sobre fracasso. Ou o poema é ruim ou narra alguma citação de fracasso. O poeta teve que colocar uma nota explicativa sobre isso --por que ele escreveu esse poema-- e explicar o contexto da época", esclareceu a escritora Ana Rüsche, uma das idealizadoras do projeto.

A revista será distribuída exclusivamente em formato digital, e poderá ser lida por qualquer internauta, seja em PDF, Kindle ou em Sony Reader.

Os "poetas mafiosos" Ana Guadalupe, Ana Rüsche, Andréa Catrópa, Érica Zíngano, Felipe Sentelhas, Lilian Aquino, Maiara Gouveia, Márcio-André, Paulo Ferraz, Rafael Daud, Renan Nuernberger e Ricardo Silveira vão oficializar o lançamento do volume no próximo sábado (20), a partir das 20h, na Choperia Liberdade.

11.2.10

um poema de sorte

feliz o poema
que ganha outro poema
em troca

só encaixadinhas
as estrofes cumprem
seu papel na terra


21.1.10

compro

uma guitarra
pra nintendo wii
tratar aqui

14.1.10

ampla sobreloja

não há grades nas janelas
nem tapetes

tudo bem que já não convida visitas
tudo bem que já não estica as costas
tudo bem que separou revistas
velhas pra reler agora

era certo que hoje chegaria
ao contrário das outras datas

então os espaços
entre os azulejos seriam
mais familiares que esta casa