30.4.10


peso pena


26.4.10

dívida com a vendedora de passe

respondo qualquer coisa
e compartilho o cartão com as senhoras
afinal já somos íntimas
todas levemente abatidas
pela manhã na linha 466

a vendedora de passe de ônibus
pergunta de você a cada 3 meses

você na sua linha ___

deve saber que eles já não vendem
os passes de papel por aqui

6.4.10

as orelhas d'os prêmios de cortázar


— Toda essa conversa é bastante inútil — disse. — Quando comecei a ler romances, e olhe que isso me aconteceu em plena infância, tive desde o começo a sensação de que os diálogos entre as pessoas eram quase sempre ridículos. Por uma razão muito especial: é que a menor circunstância os teria impedido ou frustrado. Por exemplo, se eu tivesse entrado no meu camarote e você tivesse resolvido ir para o convés, em vez de vir tomar uma cerveja. Por que dar importância a uma troca de palavras que acontece devido à mais absurda das coincidências?
— O mal — disse Medrano — é que isso pode se estender facilmente a todos os atos da vida, inclusive ao amor, que até agora me continua parecendo o mais grave e o mais fatal. Aceitar seu ponto de vista significa banalizar a existência, lançá-la no puro jogo do absurdo.
— Por que não? — disse Claudia.



***

— Além do mais, eu lhe trago novidades do octopato — disse Persio.
Jorge fincou os cotovelos na mesa.
— Achou-o debaixo da cama ou na banheira? — perguntou.
— Trepado na máquina de escrever — disse Persio. — Que é que você pensa que estava fazendo?
— Escrevendo a máquina.
— Que garoto inteligente! — disse Persio a Claudia — Claro que estava escrevendo a máquina. Tenho aqui o papel, vou ler um pedaço. Diz: "Sai de viagem e me deixa, como um velho novelo de lã. Espera-o, a cada instante, o pobrezinho octopato". Assinado: "O octopato, com um carinho e uma censura".
— Coitado do octopato — disse Jorge. — Que é que vai comer quando você estiver ausente?
— Fósforos, lápis, telegramas e uma lata de sardinhas.
— Não vai conseguir abri-la — disse Claudia.
— Ah, sim, o octopato sabe — disse Jorge.


***

Mais uma vez, Persio sente que, nessa hora de iniciação, o que cada passageiro chama de amanhã pode instaurar-se sobre bases definidas esta noite. Sua única ansiedade é o importante da opção possível: guiar-se pelas estrelas, pelo compasso, pela cibernética, pela casualidade, pelos princípios da lógica, pelas razões obscuras, pelas tábuas do assoalho, pelo estado da vesícula biliar, pelo sexo, pelo caráter, pelos palpites, pela teologia cristã, pelo Zend Avesta, pela geléia real, por um guia de estradas de ferro portuguesas, por um soneto, pela Semana Financiera, pela forma do queixo de Dom Galo Porriño, por uma bula, pela cabala, pela necromancia, por Bonjour tristesse, ou simplesmente ajustando a conduta marítima às animadoras instruções que vêm em toda latinha de pastilhas Valda?


júlio cortázar, os prêmios