6.4.10

as orelhas d'os prêmios de cortázar


— Toda essa conversa é bastante inútil — disse. — Quando comecei a ler romances, e olhe que isso me aconteceu em plena infância, tive desde o começo a sensação de que os diálogos entre as pessoas eram quase sempre ridículos. Por uma razão muito especial: é que a menor circunstância os teria impedido ou frustrado. Por exemplo, se eu tivesse entrado no meu camarote e você tivesse resolvido ir para o convés, em vez de vir tomar uma cerveja. Por que dar importância a uma troca de palavras que acontece devido à mais absurda das coincidências?
— O mal — disse Medrano — é que isso pode se estender facilmente a todos os atos da vida, inclusive ao amor, que até agora me continua parecendo o mais grave e o mais fatal. Aceitar seu ponto de vista significa banalizar a existência, lançá-la no puro jogo do absurdo.
— Por que não? — disse Claudia.



***

— Além do mais, eu lhe trago novidades do octopato — disse Persio.
Jorge fincou os cotovelos na mesa.
— Achou-o debaixo da cama ou na banheira? — perguntou.
— Trepado na máquina de escrever — disse Persio. — Que é que você pensa que estava fazendo?
— Escrevendo a máquina.
— Que garoto inteligente! — disse Persio a Claudia — Claro que estava escrevendo a máquina. Tenho aqui o papel, vou ler um pedaço. Diz: "Sai de viagem e me deixa, como um velho novelo de lã. Espera-o, a cada instante, o pobrezinho octopato". Assinado: "O octopato, com um carinho e uma censura".
— Coitado do octopato — disse Jorge. — Que é que vai comer quando você estiver ausente?
— Fósforos, lápis, telegramas e uma lata de sardinhas.
— Não vai conseguir abri-la — disse Claudia.
— Ah, sim, o octopato sabe — disse Jorge.


***

Mais uma vez, Persio sente que, nessa hora de iniciação, o que cada passageiro chama de amanhã pode instaurar-se sobre bases definidas esta noite. Sua única ansiedade é o importante da opção possível: guiar-se pelas estrelas, pelo compasso, pela cibernética, pela casualidade, pelos princípios da lógica, pelas razões obscuras, pelas tábuas do assoalho, pelo estado da vesícula biliar, pelo sexo, pelo caráter, pelos palpites, pela teologia cristã, pelo Zend Avesta, pela geléia real, por um guia de estradas de ferro portuguesas, por um soneto, pela Semana Financiera, pela forma do queixo de Dom Galo Porriño, por uma bula, pela cabala, pela necromancia, por Bonjour tristesse, ou simplesmente ajustando a conduta marítima às animadoras instruções que vêm em toda latinha de pastilhas Valda?


júlio cortázar, os prêmios


5 comentários:

Victor Carvalho disse...

Serei sincero com você, ok? Não entendi uma boa parte do que está escrito aí. Mas sorri sozinho ao fim da leitura. Talvez da minha burrice literária, talvez da sutileza do seu texto. Eu fico com a segunda opção. Mas, como isso automaticamente me torna um cara que nega a realidade, eu fico com as duas.

pedro de sá disse...

oi, ana, como não consigo te mandar e-mails como tenho de lido até de madrugada pensei em te mandar isso, pq penso que talvez você entenda de qq forma pode-se sempre -sempre- apagar um post


Baño de aceite para enternecer la piel


Deitou-se na grama umectada
sob a árvore
and whispered:

Be quiet dog
feel the wind…
feel the sun…
feel the sound
of the ground
when the grass
it´s growing green up

praque tal espetá
culo se já vivi mil vidas
repensando o peso
de los
equívocos
de siempre?

Se já fui árvore
Dog
Hoje
Spirit
The Same
Pain
Evoé

O que faço aqui
então
fatigado
vivendo os mesmos
uns uns uns
Os mesmos
Ohs!


Parce-que la vérité ne peut être vrai à travers les mots
lês mots sont l´ilusion
et tout que ce que nous pouvons dire à travers eux
c´est uniquement
arbitraire.

Por que não viro luz?
Why am I just
here
very concern about
mysel
fish in the water?

What about fly away?
What about die and born again and
over again and
I can´t forget...


um beijo e que a pricisão de escrever seja sempre maior que a vexa

darmilhoaosbois.blogspot.com disse...

Octophatos, sapatos de palhaço e Guarda-chuvas.

Belo post.

guiga disse...

ai ana quando li este livro estava perdidaço, me embrenhei nesta viagem tbm, gosto da parte em que ele fica pensando nas atitudes de betina depois de sua saida inesperada.

adá disse...

gosto bastante desse livro e do personagem Raul, o que será que ele anda fazendo?