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9.11.09

bem-amado

perto de coisas como uma galera que vê trechos do futuro mas continua chata, a história de um quarentão que se prostitui até parece entretenimento de qualidade. claro que toda série tenta ir muito além da sinopse e, com um pouco de paciência, qualquer um se surpreende com, digamos, as personalidades dos adolescentes excluídos que interpretam hinos da música pop num coral do colégio.

como o comboio de carnivàle não era feito só de artistas de circo, um cara que se prostitui é muito mais que um garoto de programa mais velho. é por isso que você consegue indicar hung pra sua tia sem sequer mencionar a atividade do protagonista e, sem muito esforço, considerar esse o seriado mais ternura das últimas temporadas.

acontece que ray drecker, o bem-dotado do título nacional, que está prestes a ser demitido do seu emprego ruim e tem um casal de filhos incrivelmente inadequados, certa madrugada acorda com sua casa destruída por um incêndio e passa a viver numa barraca de acampamento, enquanto é humilhado pelo vizinho rico e pela ex-mulher. depois de ir a uma palestra motivacional pouco confiável, ele resolve usar seu maior talento (hum hum) pra ganhar dinheiro, com a ajuda de uma poeta frustrada esquisitinha que tenta fazer pães recheados com poemas. assim nasce a consultoria da felicidade, um jeito bonito de chamar os serviços que ray e tanya passam a oferecer.

a cada não-programa, ray, tanya e os outros personagens não menos perdidos reconstroem suas vidas e às vezes encontram mel de abelha, enquanto a primeira temporada de hung nos presenteia com reflexões sinceras e bem-humoradas sobre homens, mulheres, homens inseguros, mulheres tristes, adolescentes feios, possíveis contratantes de sexo pago e outras maiorias adoráveis que a gente talvez nunca tenha visto na TV.

20.10.09

camundongo

calabouço o corpo pesa
toneladas lá dentro
o camundongo sobe escadas

na torre mais alta as alavancas
fazem você lá fora
alcançar um lenço de bolso



16.7.09

poema do vento

não é preciso ter intuição de dale cooper pra enxergar as conexões simbólicas da rotina e algo de angelo badalamenti & corujas traiçoeiras no disco novo do mount eerie, cujo lançamento oficial acontece em agosto. basta conhecer o ventilador de uma das casas de twin peaks e colecionar as pistas em cada uma das músicas de phil elverum em wind's poem. a mais óbvia está na oitava faixa, between two mysteries, mas todas as outras têm nomes dignos daqueles poemas místico-eróticos que a laura palmer escrevia em seu diário: through the trees, wind speaks, my heart is not at peace e por aí vai. laura não morreu, mas escreve as letras do mount eerie.
dizem que o vento, grande símbolo das paisagens etéreas, foi a inspiração inicial dos criadores de twin peaks quando a série nem tinha enredo ou personagens escritos: eles teriam vendido a ideia do piloto só descrevendo o assobio de um vendaval. parece que a afinidade entre a mesma força da natureza e o tal elverum decolou depois de uma nova temporada numa cabana na floresta, embora já aparecesse em seus trabalhos anteriores. já sabemos quais DVDs ele levou pra relembrar os velhos tempos, que são os mesmos de eerie indiana, aquela série do menino envolvido com enigmas numa outra cidadezinha americana.
diane, aqui vai uma teoria: mount eerie visivelmente se conecta a eerie indiana, que, por sua vez, já citou até a senhora do tronco de twin peaks, agora cenário desse disco do mesmo mount eerie.



22.3.09

olhos suados

ainda sobre seriados e dentes separados, flight of the conchords já tem duas temporadas, elogios da crítica e até episódio dirigido pelo michel gondry. alguns momentos, como a música das lágrimas de chuva, são mesmo muito engraçados. mas isso não salva a dupla-folk-neozelandesa-tentando-o-sucesso-em-nova-york das piadas infelizes, sempre dedicadas às tentativas repetidas de conquistar a garota mais bonita da festa. se bret e jemaine (o ator de eagle vs. shark) fossem mais espertos, procurariam pares românticos mais adequados e tratariam melhor sua única fã.


4.12.07

5.6.07

óculos do chaves

1.

quantas voltas
pra sua alegria
voltar a pé
pra beber com
a gente te falar
com cuidado
não se recuse a usar
seus dedoches
pra dizer não
às drogas
que te roubam
a ternura



2.

um curto-circuito
no fio da meada
do novelo de lã
que usava

pra rechear umbigos
andar em círculos
te comer melhor
com suas próprias
lombrigas



3.

daqui pra
frente
não seja assim
tão
rebelde
cultive acne
coma granola
e de vez em
quando
escute enya