13.6.07

sf 1 Briefwechsel, Korrespondenz, Schriftverkehr. 2 Post, Posteingang, Postausgang. 3 Entsprechung

na alemanha em 1817
três crianças iniciaram
uma divertida corrente
por correspondência

dentro de doze minutos
envie para mais dez pessoas
para receber belíssimos
postais do mundo todo

caso não aprecie postais
será o primeiro a quebrar
a corrente
e jamais receber uma carta
de amor

12.6.07

o mundo silencioso


num esforço para que as pessoas
olhem mais nos olhos umas das outras,
e também para satisfazer os mudos,
o governo decidiu determinar
para cada pessoa exatamente cento
e sessenta e sete palavras por dia.

quando toca o telefone, ponho-o ao ouvido
sem dizer alô. no restaurante
aponto para a canja de galinha.

estou me ajustando bem ao novo jeito.
tenho estampas para todas as ocasiões.
cada manhã invento uma nova frase
que imprimo numa camiseta,
como os seres humanos estão vindo
ou karaokê para mudos.

tarde da noite, ligo para meu amor distante,
orgulhoso digo somente gastei cinqüenta e nove hoje.
guardei o resto para você.

quando ela não responde
sei que usou todas as suas palavras
então sussurro lentamente eu amo você
trinta e duas vezes e um terço.
depois disso, ficamos junto à linha
ouvindo um o respirar do outro.


-

jeffrey mcdaniel
tradução de mauro faccioni filho

5.6.07

óculos do chaves

1.

quantas voltas
pra sua alegria
voltar a pé
pra beber com
a gente te falar
com cuidado
não se recuse a usar
seus dedoches
pra dizer não
às drogas
que te roubam
a ternura



2.

um curto-circuito
no fio da meada
do novelo de lã
que usava

pra rechear umbigos
andar em círculos
te comer melhor
com suas próprias
lombrigas



3.

daqui pra
frente
não seja assim
tão
rebelde
cultive acne
coma granola
e de vez em
quando
escute enya




1.6.07

maneiras

último telefonema numa noite de março - mergulho
com chiclete do lado esquerdo da boca - incêndio
premeditado na festa junina - bicicleta
pretensiosa que quase voa - queda
artística num banheiro úmido - torcicolo
brusco na hora do abraço


(projéteis de mistério:)
há os que se despedem
nas colisões
com o tempo

bronze

não xinguem
se eu acabar fugindo
do domingo na praia
do picolé de leite
ou de fruta

da pretensão de medalha
no concurso de beleza
do calor humano
desse sol lindo

no fim da tarde
os eletrodos
como eu insistem
em esperar por
choques



31.5.07

o renato

alô: leiam o meu amigo renato mazzini, um dos poetas com quem mais me identifico. aqui vão três dos meus preferidos, sem mais.


poema obscurecido


velha senhora comendo grama com chopsticks
me pergunto o porquê disso
e a providência me tenta pregar uma peça
velha senhora pintando um quadro
unhas confusas no verde-pântano da grama
olho e entendo pouco
e distraído me deixo cair
sob a sombra de um aerólito



autobiografia em dezessete linhas


moleque pequeno que não gosta de futebol
e tem tão poucos amigos que só podia dar em psicólogo
mãe pegando pela mão
tudo transcorre sem maiores problemas
canhestro para o amor e dado
a desperdiçar vazio
mente o fôlego
aos vinte e três falta o jeito
quebra o parabrisa com a cabeça
um corte grande na testa e os olhos
com o sangue nem abrem direito
pensa ter encontrado a tulipa à espera
mas pode estar errado
e reconhece como o resumo de sua história
que a vida pratica reengenharia genética
em tudo que se dá por certo
só pra te fazer rir ao contrário
só pra te fazer esperar o reafago


breu


escuridão como colher de sopa
que parou de refletir um rosto algum
mesmo com o líquido sorvido
escuridão de mangas apertadas
e gola incômoda que pinica a pele
e zíper dado à ferrugem de jamais abrir
escuridão minha guardada na carteira
visível só pelos íntimos
e cravejada de constrangimento amargo
escuros os segundos que rejeitam
o trabalho de se agrupar em minutos
e os meus dentes amarelam enquanto


-

27.5.07

éclair

convulsão ou cócega
branco do olho
virado do avesso

assim responderá
ao estímulo
desse que muito lhe quer bem

muitíssimo

com membros e mãos
que evitarão que se quebre
a casca do seu ovo
essa porcelana

ter uma desculpa
menos cretina

só uma

pra quando através
da abertura mínima

projetar em você
esse algo
cor de açúcar



24.5.07

não me canso


i'm a deep sea diver losing air

é mesmo uma letra deprimente, mas gosto muito dessa música e desse disco do grizzly bear. o clipe é tão feio que logo me conquistou. vejam: bonecos (que qualquer um desenharia melhor) num videogame lento com cores de cocô e fases de água e areia. eu - como todo mundo - sempre odiei as fases de água E as de areia também (aí lembro de um jogo horrível pro mega drive - chameleon kid). eu (previsível) gostava das fases verdes e fáceis e daquelas no mundo do chocolate ou da gelatina.


22.5.07

a memória das coisas

revelo um fato místico
enquanto me agarro
ao seu casaco:

usamos lãs de ovelhas
que tomaram chuva

e basta
um vaso de orquídea
uma cápsula do tempo
um bolso secreto
na parte de dentro

pra que eu te guarde
de um céu
que pretende muito


20.5.07

lilipute

longe se estendem
banais cartilagens
dos planos destruídos
nas pausas para lanche

apenas a recordação
de guliver capturado
com lanças pelo corpo
e novidade nas sardas

inspira breve susto e
breve exercício respiratório

para recobrar a calma




14.5.07

toc

quem bate à porta
acredite
não é o frio

que é costume mandar embora

não são os escoteiros
ou as mulheres da igreja
ou os sujeitos de boina

hoje não abra

quem bate
é esse intruso
que de brinde levará
as chaves e
o dente mole
há anos à espera
de um impulso
no barbante

e mudará
por completo
o sentido
dos rituais noturnos
pra checar mil vezes
se a porta
foi trancada


7.5.07

portal literal

surpresa: graças à muito querida e dona de poemas tão bonitos bruna beber, estou lá na curadoria de poeta, levando três poemas daqui.


seqüência

aquele é o cenário quieto em tons
de verde triste e verde claro
escrivaninha cadernos e telescópio

aquelas são as persianas
bem fechadas para que a inspiração
não ouse ir embora de alpargatas

e
esse
que te escreve
é o personagem que morre
falando sobre asteróides
ao telefone

5.5.07

poemas pra ninar pesadelos

da encomenda

passos longos em direção ao
ponto árido onde barcos
trazem embrulhos
p. exemplo caixas
de madeira
nas quais os entes
queridos
estão
todos
guardados

-

da comida

é meu desjejum é
meu único
o sinto prestes a ser servido
um prato grande e
vermelho
o vejo antes que seja prato
salivo como um bicho

assim que chega
noto, medonha e trêmula,

que está vazio

-

da nudez

despertar súbito
sob os dedos enormes
dos colegas
há a surpresa
de afinal não ter trazido
sequer o vestido






3.5.07

selos


toda quinta-feira numa coluna de poesia no diário (maringá): poemas inéditos & outras tentativas bem intencionadas, sob o novíssimo codinome dessa ana guadalupe.