pelas frestas
ferrugens e finais
olhar bem um canto do assoalho
gritar na varanda
uma vida inteira
pra tentar descobrir
onde começam
a reforma e a pintura
das casas velhas que são
quem a gente quer bem
6.9.10
madeira e alvenaria
- ana guadalupe às 21:16 2 comentário(s)
em poemas
5.9.10
quem empresta
os livros preferidos nas edições exatas
as mesmas orelhas nas mesmas páginas
um autor citado nas conversas
em que se tenta mostrar conteúdo
agora nas mãos ásperas e sem escrúpulos de quem empresta
logo os filmes que você mais gosta
com o ator que lembra um irmão ou amigo
um personagem que se parece com você dez anos antes
e agora dez anos depois não queria entregar de mão beijada
pro interior das bolsas manchadas de quem nunca devolve
os melhores e mais doloridos discos da sua vida
de preferência com uma história parecida
pra contar em mesas de diferentes cidades
onde os presentes serão estranhamente próximos
aos da outra cidade e ao dono da primeira estante
de repente quem devolve logo tenta te encontrar
de novo ou, pelo contrário, quem não sente nada
é que devolve antes
- ana guadalupe às 21:47 3 comentário(s)
em poemas
1.9.10
o amaciante mais barato do mercado
a máquina de lavar
modelo tanquinho
destrói semanalmente
os tecidos íntimos
- ana guadalupe às 22:15 6 comentário(s)
em poemas
10.8.10
triângulo das bermudas
na enchente quem salvará
nossos grampos
clipes e alfinetes
o resgate não virá
para ramonas
pregos e pentes
um carro desgovernado
esfregará ex-bermudas
pelo chão e paredes
- ana guadalupe às 21:10 4 comentário(s)
em poemas
23.7.10
diabetes de tamires
nossa sala enfileirada
na quadra
pirulitos entregues
pelas professoras
lanço olhares cúmplices mas esqueço
que tamires não enxerga
tamires não faz nada direito
só abre agora o pacote de amendoim
salgado que só ela
só ela ganhou
- ana guadalupe às 14:03 7 comentário(s)
em poemas
22.7.10
no rio de janeiro
peso pena terá lançamento carioca no dia 24,
no sebo baratos da ribeiro.
- ana guadalupe às 14:01 0 comentário(s)
28.6.10
antes das livrarias
por 20 reais, você pode receber na sua casa poemas selecionados & ilustrados de dez poetas contemporâneos com apresentação do chacal. basta enviar um e-mail para o editor vanderley mendonça (vanderleymeister@gmail.com) com o assunto peso pena.
- ana guadalupe às 09:49 1 comentário(s)
16.6.10
25.5.10
perdendo dedos
com as orelhas quentes
de quem nota a perda
dos documentos
e da carteira
dos óculos
e das lentes
como quem acorda
numa sessão de hipnose
com fitas K7
pensando que hoje
é ontem
ou ano que vem
ou um hoje menos coerente
a gente se perde
como se interrompesse
a frase mais importante
como um pedestre distraído
atravessando a ponte
como quem se levanta sem volta
pra ir na esquina
a gente se perde
como se dormisse num filme
que acabou de começar
- ana guadalupe às 12:50 11 comentário(s)
em poemas
24.5.10
as fitas do angelino
congelados com angelino
os clipes gravados da TV
minha amizade estudada com a sobrinha
só pra esperar a tarde em que ele me chama
pra sala
e me elege a caligrafia oficial
de todas as detalhadas listas explicativas
das suas fitas
grande dia
- ana guadalupe às 10:12 1 comentário(s)
em poemas
30.4.10
26.4.10
dívida com a vendedora de passe
respondo qualquer coisa
e compartilho o cartão com as senhoras
afinal já somos íntimas
todas levemente abatidas
pela manhã na linha 466
a vendedora de passe de ônibus
pergunta de você a cada 3 meses
você na sua linha ___
deve saber que eles já não vendem
os passes de papel por aqui
- ana guadalupe às 18:44 30 comentário(s)
em poemas
6.4.10
as orelhas d'os prêmios de cortázar
— Toda essa conversa é bastante inútil — disse. — Quando comecei a ler romances, e olhe que isso me aconteceu em plena infância, tive desde o começo a sensação de que os diálogos entre as pessoas eram quase sempre ridículos. Por uma razão muito especial: é que a menor circunstância os teria impedido ou frustrado. Por exemplo, se eu tivesse entrado no meu camarote e você tivesse resolvido ir para o convés, em vez de vir tomar uma cerveja. Por que dar importância a uma troca de palavras que acontece devido à mais absurda das coincidências?
— O mal — disse Medrano — é que isso pode se estender facilmente a todos os atos da vida, inclusive ao amor, que até agora me continua parecendo o mais grave e o mais fatal. Aceitar seu ponto de vista significa banalizar a existência, lançá-la no puro jogo do absurdo.
— Por que não? — disse Claudia.
***
— Além do mais, eu lhe trago novidades do octopato — disse Persio.
Jorge fincou os cotovelos na mesa.
— Achou-o debaixo da cama ou na banheira? — perguntou.
— Trepado na máquina de escrever — disse Persio. — Que é que você pensa que estava fazendo?
— Escrevendo a máquina.
— Que garoto inteligente! — disse Persio a Claudia — Claro que estava escrevendo a máquina. Tenho aqui o papel, vou ler um pedaço. Diz: "Sai de viagem e me deixa, como um velho novelo de lã. Espera-o, a cada instante, o pobrezinho octopato". Assinado: "O octopato, com um carinho e uma censura".
— Coitado do octopato — disse Jorge. — Que é que vai comer quando você estiver ausente?
— Fósforos, lápis, telegramas e uma lata de sardinhas.
— Não vai conseguir abri-la — disse Claudia.
— Ah, sim, o octopato sabe — disse Jorge.
***
Mais uma vez, Persio sente que, nessa hora de iniciação, o que cada passageiro chama de amanhã pode instaurar-se sobre bases definidas esta noite. Sua única ansiedade é o importante da opção possível: guiar-se pelas estrelas, pelo compasso, pela cibernética, pela casualidade, pelos princípios da lógica, pelas razões obscuras, pelas tábuas do assoalho, pelo estado da vesícula biliar, pelo sexo, pelo caráter, pelos palpites, pela teologia cristã, pelo Zend Avesta, pela geléia real, por um guia de estradas de ferro portuguesas, por um soneto, pela Semana Financiera, pela forma do queixo de Dom Galo Porriño, por uma bula, pela cabala, pela necromancia, por Bonjour tristesse, ou simplesmente ajustando a conduta marítima às animadoras instruções que vêm em toda latinha de pastilhas Valda?
júlio cortázar, os prêmios
- ana guadalupe às 12:06 5 comentário(s)
em leituras
24.3.10
o poema distante
o poema não aparece há três semanas
quando procurado nas revistas, se afasta
até a última página
do livro preferido não há mais poema
resta o leitor relapso, talvez esquizofrênico
que confundia romances policiais ao contrário
folhas dos cadernos brochura ao lado
de uma cama de solteiro sem lençóis, colchão exposto
onde escreveu seus versos mais estúpidos
mas não piores que outros
que ainda virão antes que o poema volte
se é que volta
o poema não está a fim
de conversa
o poema recusou convites
pra comer fora
dizem que a ausência de mensagens
é sinal de partida definitiva, mas há esperança
do celular do poema estar sem bateria
- ana guadalupe às 18:45 5 comentário(s)
em poemas
resto de ave recheada
palavra presa
que nas horas vagas
vira nó
na garganta
até as formigas
se pudessem
te carregariam
pra fora
- ana guadalupe às 18:12 2 comentário(s)
em poemas

