29.9.10

bolsa pesada de carteiro

um carteiro pra chamar
de seu
entre outros nomes
exceto o dele
se a carta não chegar
nem depois de meses
de torcida dos parentes
um carteiro pra colocar a culpa
sem remorso em caso de acidente
o carteiro não levará mágoa nenhuma
só cartas
em sua bicicleta
porque mágoa seria peso extra
e peso extra todo carteiro evita
todo bom carteiro nunca abre ou espia
nem por um minuto a correspondência
dessa rua
ou da sua

13.9.10

calor no inverno

até calafrios de febre
podem substituir ventiladores
quando faz calor em pleno inverno
e alguém esquece de puxar os fios
do frio

a cidade e todos que conhecemos
não andam se entendendo
nós, ao contrário da cidade,
quase sempre lavamos sozinhos
e com capricho
os cabelos

6.9.10

madeira e alvenaria

pelas frestas
ferrugens e finais

olhar bem um canto do assoalho
gritar na varanda

uma vida inteira
pra tentar descobrir
onde começam

a reforma e a pintura
das casas velhas que são
quem a gente quer bem

5.9.10

quem empresta

os livros preferidos nas edições exatas
as mesmas orelhas nas mesmas páginas
um autor citado nas conversas
em que se tenta mostrar conteúdo
agora nas mãos ásperas e sem escrúpulos de quem empresta
logo os filmes que você mais gosta
com o ator que lembra um irmão ou amigo
um personagem que se parece com você dez anos antes
e agora dez anos depois não queria entregar de mão beijada
pro interior das bolsas manchadas de quem nunca devolve
os melhores e mais doloridos discos da sua vida
de preferência com uma história parecida
pra contar em mesas de diferentes cidades
onde os presentes serão estranhamente próximos
aos da outra cidade e ao dono da primeira estante
de repente quem devolve logo tenta te encontrar
de novo ou, pelo contrário, quem não sente nada
é que devolve antes

1.9.10

o amaciante mais barato do mercado

a máquina de lavar
modelo tanquinho
destrói semanalmente
os tecidos íntimos

10.8.10

triângulo das bermudas

na enchente quem salvará
nossos grampos
clipes e alfinetes

o resgate não virá
para ramonas
pregos e pentes

um carro desgovernado
esfregará ex-bermudas
pelo chão e paredes

23.7.10

diabetes de tamires

nossa sala enfileirada
na quadra

pirulitos entregues
pelas professoras

lanço olhares cúmplices mas esqueço
que tamires não enxerga
tamires não faz nada direito

só abre agora o pacote de amendoim
salgado que só ela
só ela ganhou

22.7.10

no rio de janeiro


peso pena terá lançamento carioca no dia 24,
no sebo baratos da ribeiro.

mais informações no http://pesopena.wordpress.com/

28.6.10

antes das livrarias

por 20 reais, você pode receber na sua casa poemas selecionados & ilustrados de dez poetas contemporâneos com apresentação do chacal. basta enviar um e-mail para o editor vanderley mendonça (vanderleymeister@gmail.com) com o assunto peso pena.

16.6.10

peso pena


em são paulo.
estarei lá. espero que levem câmeras, porque a minha tá quebrada.

25.5.10

perdendo dedos

com as orelhas quentes
de quem nota a perda
dos documentos
e da carteira
dos óculos
e das lentes

como quem acorda
numa sessão de hipnose
com fitas K7
pensando que hoje
é ontem
ou ano que vem
ou um hoje menos coerente
a gente se perde

como se interrompesse
a frase mais importante
como um pedestre distraído
atravessando a ponte
como quem se levanta sem volta
pra ir na esquina

a gente se perde
como se dormisse num filme
que acabou de começar

24.5.10

as fitas do angelino

congelados com angelino
os clipes gravados da TV

minha amizade estudada com a sobrinha
só pra esperar a tarde em que ele me chama
pra sala

e me elege a caligrafia oficial
de todas as detalhadas listas explicativas
das suas fitas

grande dia

30.4.10


peso pena


26.4.10

dívida com a vendedora de passe

respondo qualquer coisa
e compartilho o cartão com as senhoras
afinal já somos íntimas
todas levemente abatidas
pela manhã na linha 466

a vendedora de passe de ônibus
pergunta de você a cada 3 meses

você na sua linha ___

deve saber que eles já não vendem
os passes de papel por aqui

6.4.10

as orelhas d'os prêmios de cortázar


— Toda essa conversa é bastante inútil — disse. — Quando comecei a ler romances, e olhe que isso me aconteceu em plena infância, tive desde o começo a sensação de que os diálogos entre as pessoas eram quase sempre ridículos. Por uma razão muito especial: é que a menor circunstância os teria impedido ou frustrado. Por exemplo, se eu tivesse entrado no meu camarote e você tivesse resolvido ir para o convés, em vez de vir tomar uma cerveja. Por que dar importância a uma troca de palavras que acontece devido à mais absurda das coincidências?
— O mal — disse Medrano — é que isso pode se estender facilmente a todos os atos da vida, inclusive ao amor, que até agora me continua parecendo o mais grave e o mais fatal. Aceitar seu ponto de vista significa banalizar a existência, lançá-la no puro jogo do absurdo.
— Por que não? — disse Claudia.



***

— Além do mais, eu lhe trago novidades do octopato — disse Persio.
Jorge fincou os cotovelos na mesa.
— Achou-o debaixo da cama ou na banheira? — perguntou.
— Trepado na máquina de escrever — disse Persio. — Que é que você pensa que estava fazendo?
— Escrevendo a máquina.
— Que garoto inteligente! — disse Persio a Claudia — Claro que estava escrevendo a máquina. Tenho aqui o papel, vou ler um pedaço. Diz: "Sai de viagem e me deixa, como um velho novelo de lã. Espera-o, a cada instante, o pobrezinho octopato". Assinado: "O octopato, com um carinho e uma censura".
— Coitado do octopato — disse Jorge. — Que é que vai comer quando você estiver ausente?
— Fósforos, lápis, telegramas e uma lata de sardinhas.
— Não vai conseguir abri-la — disse Claudia.
— Ah, sim, o octopato sabe — disse Jorge.


***

Mais uma vez, Persio sente que, nessa hora de iniciação, o que cada passageiro chama de amanhã pode instaurar-se sobre bases definidas esta noite. Sua única ansiedade é o importante da opção possível: guiar-se pelas estrelas, pelo compasso, pela cibernética, pela casualidade, pelos princípios da lógica, pelas razões obscuras, pelas tábuas do assoalho, pelo estado da vesícula biliar, pelo sexo, pelo caráter, pelos palpites, pela teologia cristã, pelo Zend Avesta, pela geléia real, por um guia de estradas de ferro portuguesas, por um soneto, pela Semana Financiera, pela forma do queixo de Dom Galo Porriño, por uma bula, pela cabala, pela necromancia, por Bonjour tristesse, ou simplesmente ajustando a conduta marítima às animadoras instruções que vêm em toda latinha de pastilhas Valda?


júlio cortázar, os prêmios