31.8.07

um menino de oito anos surgiu grudado ao corrimão enquanto eu descia os degraus circulares de um edifício comercial no horário de almoço. escolhi as escadas por medo do elevador cujas portas se fecham rápido demais. o menino me seguiu do quarto ao primeiro andar; senti que era um daqueles inimigos pequenos dos videogames: uma gota branca com olhos verticais e helicóptero no boné.


28.8.07

ventana

fique para
qualquer coisa
- fique para o café,
minha cara
de paisagem
na janela
(antes que
de vez
despenque
o humor
de pálpebra)
entreaberta

22.8.07

cinco minutos a viuvinha

não quero te fazer infeliz nunca mais
roubar seu computador
com o pretexto de fazer amigos
concluir o mestrado

não quero te fazer maldades tão cedo
levar todos os seus eletroeletrônicos
em caixas de achocolatado
antes que você volte do trabalho
pra não sentir remorso

por te abandonar sozinho
sem móveis e com medo
sem alguém de temperamento difícil
pra amar

sozinho com seus próprios
pés repletos de frieiras
e a falta de alguém
pra te fazer
massagens
maldades
de novo

21.8.07

há fantasmas no espelho
e olham meu medo de olhar no espelho
estou dizendo há fantasmas e tremo
e atiro fugas nos olhos do espelho que não quebra
e insiste em devolver a feiura que recuso
me oferece o que sou
a mim que vejo apenas o que aceito

aceito rugas e dentes amarelos
e cabelos brancos e cicatrizes
não a minha pequeneza que escondo
encontro menos que uma frágil pista
que me dou e que me nego
uma impressão digital deixada no espelho
bem na altura do meu olho cego


jeferson nunes

em uma folha seca caiu no meu colo no primeiro dia do ano (carriola press, 2007)

7.8.07

sabor artificial morango

ensinaram
que não se chora
no trabalho
que em dia de chuva
não se usa branco

é uma pena
não ter aprendido
a compartilhar
as bolachas rellenas

os beijos enviados de volta pra linha reta que me une a você

2.8.07

nunca escreveram um poema pra mim

ana

de tanto gostar imenso

sei até de cor,

a cor dos teus cílios.

o espelho é a alma lá dentro:

(palinódia, palíndromo.)



rodrigo césar carreira

23.7.07

alex kidd

endireito os ombros
certifico que sou da mesma altura
que minha presunção e minha ousadia
mesmo que meus sapatos sejam altos
e tenham asas

mesmo que atravesse a cidade
matando pessoas com pedras
papel e tesoura

mesmo que jogue pérolas
pra quebrar suas janelas

minha única missão
é cantar uma música
sobre o abismo



15.7.07

rumpelstiltskin

notas no diário misterioso:

fenômeno da transformarção de palha em ouro e também o processo contrário

que é disso que os anões gostam muito

10.7.07

poema em conserva

quando receber o pacote pelo correio
perceba o volume e o calor do conteúdo
artesanal e preparado pra que lhe comova
e leve a comprovar que pesa como pesa um gato
morto que você carrega anestesiado quando
o nota imóvel e absurdo junto ao poste
e já sabe que terá de cavar um buraco
grande como era o gato

a começar pelo laço desengonçado
abra o presente com o espanto e a alegria
de criança com medo de ganhar meias

não faça caso
por favor
não se incomode

ao ver no pote o esbranquiçado
do mofo por entre as curvas do vidro ou o líquido
da ferrugem na tampa metálica ou o cheiro
ocre que se espalhará até que tenha lágrimas
nos olhos que continuarão abertos na tentativa
de aceitar sinceramente as frutas da estação passada
que alguém sabia serem suas preferidas

9.7.07

(mais) hits deprimidos

some nights I thirst for real blood, for real knives, for real cries

- okkervil river é híbrido de um monte de bandas que eu ouço e provavelmente mais sensual que todas elas (bright eyes, wilco, pavement, sei lá).

claro que é meio emocionado demais, mas eu gosto, ainda mais com uma animação feia assim tão bonita.

band-aid em lixo de hotel familiar

permita-me dedilhar
suas veias – poéticas –
convencer que compre
um álbum

o mapa – geográfico –
do mundo no corpo humano
em figurinhas pra recortar
seus exageros

pra ensinar – científico –
que chagas são os cortes
permanentemente abertos
dos hemofílicos

4.7.07

angélica febem


quando eu não te tinha
tuas tetinhas de chantily
na minha língüa
cheia de tinha
tua bucetinha de molúsculo macio
em minha língüa
- dentro dela outra lingüinha
lambendo a minha -
eu sei que tinhas ambições
iguais às minhas
me ter como eu te tinha
minha língüa e a tua lingüinha
sempre vizinhas.


luis carlos frança


28.6.07

não desiste
enquanto não tenta
a seção de correspondência
da revista

manda cartas perfumadas
pras moças
dizendo ser um cara bacana
cola adesivo do pernalonga
disfarça pernas trêmulas
quando o carteiro traz
a conta

de luz

27.6.07

tom sawyer

a aventura acabou não volto
a escalar as escadas do seu prédio
até que me saltem varizes

com minhas melhores roupas de baixo
no cantil minhas piadas mais felizes
pra encher o seu saco
de dormir
comigo


25.6.07

vupt

só leu um livro na vida
que falava sobre o vento
com voz fina

se lhe escrevo um verso
e leio em voz alta
não vê graça

não sabe ouvir pausas
como as minhas
nossas idas e voltas

agora não adivinha
que carrego um poema
pra entregar antes que vá
embora junto com a ventania